sábado, 4 de agosto de 2012

Cícero em transe

pintura Rubens Gerchman

“O REAL NOS ULTRAPASSA, E POR ISSO REAL É. O POETA É AQUELE QUE NÃO SE BANHA DUAS VEZES NAS MESMAS ÁGUAS”

Nas mãos hábeis de Antonio Cícero, a poesia se transforma em uma dança. E o poeta, em uma dança. O próprio Cícero descreve: “Eram palavras aladas/ e faladas não para ficar/ mas, encantadas, voar”. Refere-se aos juramentos de amor, que fazemos entrelaçados na cama, envoltos nos lençóis da língua. Palavras em que a sedução vale mais que a eficácia. “Carícias que por lá/ sopramos: brisas afrodisíacas/ ao pé do ouvido, jamais contratos”. Vivemos no século das transações, dos acordos jurídicos e dos compromissos comerciais. Mundo em que o desejo parece não só imprestável, mas vergonhoso. Pois a poesia, com sua dança, é o terreno do desejo. Enquanto o mundo se verticaliza na ilusão do poder, o poeta se deita para dele duvidar.

Leio os versos de Antonio Cícero em “Porventura”, sua nova e inspiradora coletânea de poemas (Record). Leio e meu coração de leitor também balança. Homens que sabem o que querem não leem versos. “Jamais serei plenamente adulto:/ antes de sê-lo, serei velho”, escreve o poeta, desprezando as certezas que petrificam. A suspeita de que jamais será completamente adulto (pedra) é uma aposta no movimento. O poeta não apenas dança, mas gira, e com seu giro perfura a casca da arrogância. Entra em transe, vive em transe: para o poeta, escrever é uma dança que não se esgota.

Dois mestres surgem em cena, dois poetas, grandes poetas: o anglo-americano W. H. Auden (1907-1979) e o irlandês W. B. Yeats (1865-1939). “Eu exaltaria Auden/ viajante atormentado/ dialético e bizarro”. No mundo da sensatez, das fotocópias autenticadas e da moda, é útil reler Auden que, mesmo educado nos rigores de Oxford, frequentou a esquerda radical e viveu sua homossexualidade abertamente em plenos anos de 1930. “Ou quem sabe, Yeats, numa tarde/ feito essa, tão vadia/ possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte/ se eu lhe implorar”. Também Yeats entregou-se ao transe, misturando o hinduísmo, as crenças teosóficas e o ocultismo, e levou a loucura romântica a seu limite. Auden e Yeats, no entanto, se estranhavam. Um via no outro, talvez, o grande rombo que não percebia em si. Indiferente a essas diferenças, Cícero os incorpora. E dança com eles, na grande sala da poesia.

Entrega-se, assim, ao transe das palavras, em que a vida se torna sagrada. Não porque ela repita os textos antigos, ou manifeste a voz de um deus, mas simplesmente porque se reafirma como vida. “Eis o que torna esta vida/ sagrada:/ ela é tudo e o resto, nada”. Lembra-nos o poeta que o único fim (sentido) da vida é a morte, “e não há, depois da morte,/ mais nada”. A constatação, que a alguns deprime, e em outros inocula o cinismo, ao colocar a vida em seu próprio fim, na verdade a engrandece. A vida, essa dança desequilibrada na qual, tontos, mas cheios de calor, resistimos. A vida, à qual a grande poesia — como a de Antonio Cícero — sempre se agarra.

Ao evocar Arquimedes de Siracusa, físico e astrônomo da Grécia Antiga, o poeta recorda as quadraturas, os cálculos de areia, as esferas, cilindros e estrelas, para em seu nome dizer: “nada do que realizei se encontra à altura/ do que há por fazer./ A matemática é longa,/ a vida breve”. Tristes os que acreditam nas sínteses, nos gráficos e nas grandes soluções — enquanto a vida se arrasta como um rio interminável. Tudo o que fazemos, dizemos, escrevemos, é sempre pouco. Muito pouco. O real nos ultrapassa, e por isso real é. O poeta é aquele que não se banha duas vezes nas mesmas águas. Não bloqueia, não detém, não recolhe: entrega-se. Como Arquimedes, um homem cuja ciência, muito mais estreita que o mundo, conservava a consciência do pouco que (apesar de tudo) tinha a dizer.

A vida é desejo e, por isso, nunca chega a si, sempre está aquém de si. No livro de Antonio Cícero, um pequeno poema, “Desejo”, diz tudo: “Só o desejo não passa/ e só deseja o que passa/ e passo meu tempo inteiro/ enfrentando um só problema:/ ao menos no meu poema/ agarrar o passageiro”. Na vida contemporânea, nos habituamos às escadas rolantes que levam sempre às mesmas vitrines. Às religiões ortodoxas, que repetem sempre as mesmas verdades. Ao pragmatismo, que conduz sempre ao mesmo cinismo. Quase não há mais vida (movimento e passagem) na vida contemporânea. Uns poucos — os poetas — insistem em agarrá-la. Insistem em se fixar no instante que, mal é, já não é mais. Só os poetas suportam a fluidez na qual, apesar de nossa indiferença, estamos mergulhados.

“Que não se engane ninguém:/ ser um poeta é uma África”, escreve Cícero. Em um mundo que se entrelaça em uma grande rede, na qual tudo se vende e tudo se expõe, o poeta aponta a inutilidade de seu gesto. “Exporei tudo na rede/ sem ganhar nem um vintém”. O poeta sabe que trabalha nas bordas, ali onde as verdades escorrem, e que trabalha com as sobras, ali onde ninguém mais deseja. “Eis o que consegui:/ tudo estava partido e então/ juntei tudo em ti”. Partes que não se encaixam, palavras que não se completam, certezas que se esfarelam: “eu quis correr esse risco antes de virar/ pó”. O risco do poeta é o risco de existir. Pode haver aposta mais bela?

No mundo do tempo real, nos asfixiamos em notícias e fatos que, muito raramente, tocam o real. Nesse universo hiperiluminado, de imagens feéricas e figuras chapadas, desprezamos as entrelinhas. Contudo, é nelas que a vida não só se costura, mas respira. O poeta coloca-se em outro lugar, que Cícero descreve assim: “É aqui, mais real que as notícias, na própria/ matéria, na dobradura de uma folha”. Ali permanece, espremido em um vão, entre “linhas e planos apenas esboçados”. Quem aguenta, hoje, a imprecisão de um esboço? Quem suporta o meio do caminho, onde nada se afirma e nada se completa? Pergunta o poeta: “Não será a saída um desvio/ e o caminho o único fim?” Questão incômoda, que arruína nosso mundo de balancetes e de planilhas, enquanto o poeta, resignado a ser, limita-se a respirar. Respira o grande rio que o arrasta. Respira as coisas do mundo e, sempre suspeitando de si, se pergunta: “dar a mim mesmo este presente?”

josé castello
O GLOBO
04/08/2012 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Guardar

foto GL

 Antonio Cicero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

João Jubileu


Desde o show em Lisboa celebrando 25 anos de carreira no Coliseu dos Recreios em junho de 1984 até sua última turnê em 2008, comemorando 50 anos de Bossa Nova, João Gilberto foi  agenciado e produzido na ShowbrasEm 1986, no auge  do rock Brasil , João fez sua primeira gravação para a trilha sonora de uma novela de televisão, o sucesso do momento "Me Chama"(lobão).  Após o lançamento do disco "Live in Montreux" em 1989, foi nomeado para um Grammy na categoria Melhor Desempenho Jazz Vocal Masculino . Em 1990 fez uma participação no disco da diva brasileira Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso. Em seguida, iniciou a gravação de seu disco "João" , cujo lançamento ocorreu no ano seguinte acompanhado simultaneamente por uma campanha publicitária nacional pela tv para uma marca de cerveja e do especial “João e Antônio”, narrado por Caetano Veloso e dirigido por Walter Moreira Salles, durante uma semana em capítulos diários exibidos antes do Jornal Nacional da Tv Globo, e complementado por uma série de concertos denominados tour "Número Um". o famoso comercial revolucionou a propaganda brasileira da época e incentivou a presença de outros artistas da música em campanhas publicitárias de sucesso. o “Show número um”, marcou o reencontro com Tom Jobim no palco depois de mais de 30 anos e a gravação do especial de  TV, exibido no Brasil e distribuído pela Videofilmes em vários países , inclusive na BBC britânica. O único vídeo clip gravado por João Gilberto foi para a canção "Sampa"  ("João"- Universal Music), dirigido pelo cineasta brasileiro Ricardo Van Steen. Em 1993 participou da reabertura do Teatro Castro Alves em Salvador, Bahia, em concerto acompanhado por Maria Bethânia e Gal Costa, divas da música brasileira. Em seguida, inaugurou o primeiro Miami Jazz Festival, no Teatro Jack Gleason. Em 1994, em São Paulo, fez durante um show ao vivo a gravação de um especial de TV para comemorar o aniversário da TV CULTURA  de São Paulo. O áudio desse especial foi mixado e , em seguida, lançado pela Sony sob o título “Eu Sei Que Vou Te Amar”. No Avery Fisher Hall, em Nova York em 1995 fez um concerto em homenagem a Antonio Carlos Jobim (1927-1994), envolvendo grandes nomes da música mundial como Sting, Herbie Hancock, Astrud Gilberto e outros. Em 2001 ganhou um Grammy (Melhor Álbum de música do mundo) por “João Voz e Violão”. Em 2003 finalmente se apresentou pela primeira vez no Japão em concertos Voz e Violão no Fórum de Tóquio. Repetiu por mais duas vezes a visita ao país, se apresentando sempre no Forum de Tóquio, onde gravou um álbum ao vivo e organizou uma compilação. Em junho de 2005, João Gilberto gravou um comercial de tv institucional para a Companhia Vale do Rio Doce. O anúncio foi filmado no Rio, a canção termina dizendo "o melhor do Brasil é o povo brasileiro." O filme  só foi exibido na TV em outubro de 2008 e um ano depois reexibido. Em 2008 João realizou seu maior contrato, na celebração de seus 50 anos de carreira com o patrocínio de um banco.Ao longo desses 25 anos, além dos destaques acima, João Gilberto realizou apresentações nos EUA, na Europa e pelo Brasil. Gravou 4 discos ao vivo e 2 em estúdio, 3 campanhas nacionais de publicidade ( Brahma,  Vale e Banco Itaú).  
O melhor do Brasil 
 Já pensou Se eu nascesse no frio 
 Já pensou se eu nascesse sem samba 
 Já pensou se eu nascesse sem sol 
 Se eu nascesse sem bola Sem Copacabana
Já pensou Se eu nascesse sem mar Nascesse sem Rio Ou sem a Bahia
Já pensou Se eu nascesse sem cor Sem esse sorriso Sem essa alegria
Já pensou Se não fosse essa graça Não fosse essa raça O que seria?
Já pensou Se não fosse essa garra
E essa coragem , essa energia
Já pensou se não fosse essa fé Não fosse o que é, o que seria...
Já pensou Esse país inteiro Que o melhor do Brasil
É O POVO BRASILEIRO
memória tv globo
publicado em www.showbras.com.br/joaogilberto

domingo, 8 de julho de 2012

O Mordomo de João Gilberto

O MORDOMO DE JOÃO GILBERTO NO "SHOW NÚMERO UM - JOÃO e ANTÔNIO"

O interessante relato de um jornalista que, por uma noite, deu uma de mordomo do pai da Bossa Nova - João Gilberto:


Em 1992, fazia 30 anos que ele não se apresentava com Tom Jobim no Rio. O último show com os dois no palco havia sido em 2 de agosto de 1962, na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, ao lado de Vinicius de Moraes, Milton Banana e Os Cariocas, tendo sido batizado de "O Encontro".

O anúncio da apresentação de João Gilberto e Tom Jobim no Teatro Municipal em 7 de dezembro foi o suficiente para antever que aquele seria o acontecimento cultural do ano. Seria o reencontro. Os amigos davam versões conflitantes sobre há quanto tempo João e Tom não se falavam. Uns diziam que desde 1977 eles não conversavam; outros, que o encontro mais recente havia sido em 1986, um intervalo entre seis e 15 anos na convivência dos dois.

Um dos meus chefes na Folha me chamou e disse: "Você vai ser o mordomo do João Gilberto". Ele havia conseguido, de maneira não clara para mim, assegurar à direção do Teatro Municipal que eu era o mordomo particular de João Gilberto e aos assessores do cantor que eu era o melhor mordomo da equipe do Teatro Municipal.

Conseguira ainda infiltrar o jornalista Fernando Molica, então também na sucursal do Rio da Folha, no papel de assessor de um dos empresários do show.

Ele foi claro para nós dois: em nenhum momento nos textos que produzíssemos sobre o show de João Gilberto e Tom Jobim poderíamos dizer a forma pela qual obtivemos as informações, já que teríamos acesso a momentos privados dos dois artistas, que desconheciam que éramos jornalistas.


Às 18h30 do dia 5 de dezembro de 1992, Molica está no hotel Caesar Park, em Ipanema, para acompanhar um dos dois ensaios dos artistas para o espetáculo. "Nada de abraços e carinho sem ter fim: sorrisos, um aperto de mão, um arrastado 'oi, Tom'", descreveu ele o momento em que João Gilberto e Tom Jobim se reencontraram após anos.

Frutas, água, uísque... 

Na segunda-feira seguinte, data do show, é a minha vez. Às 17h, chego ao Teatro Municipal e me identifico na portaria: Alcides, o mordomo de João Gilberto. Dão-me a chave do camarim dele e me perguntam se está tudo de acordo: champanhe Veuve Clicquot, queijos, pães, frutas, água mineral São Lourenço, café com leite.

Vi Tom Jobim chegar às 19h, enquanto aguardava no camarim de João. Simpático, sorri e entra na porta ao lado. Sua mulher, Ana Jobim, a tudo e a todos comandava, diligente com o horário, os músicos e até a marca do uísque e a quantidade de pedras de gelo no copo.

Uma hora depois, João Gilberto chega, segurando o próprio violão, acompanhado do empresário Gil Lopes. Cumprimenta-me rapidamente, eu pergunto se quer algo de especial. Ele pede só um copo de água. Em seguida, vai em direção ao camarim de Tom Jobim.

Ele está ao piano no camarim, com um copo de Logan ao lado das teclas, próximo do chapéu Panamá. Saúda o amigo: "Oi, João". "Oi, Tonzinho", responde, carinhoso, João.

Não conversam muito. Vão direto ao palco do teatro, com portas ainda fechadas, para passar o som. João sobe em um tablado com tapete persa sobre o palco, ficando dois palmos mais alto que o local em que está o piano de Tom Jobim.

Ajeita-se no banquinho, descansa os pés em um pedaço de madeira de um palmo e dedilha o violão. Canta trechos de músicas sem concluir nenhuma delas. Diz ao microfone: "O violão está opaco". Tom fica em silêncio.

Os técnicos correm de um lado para o outro. Não conseguem melhorar o som a contento de João. O engenheiro-chefe diz a ele que atrasaria em meia hora o início do show para que pudesse acertá-lo. João volta ao camarim. Pede a mim um café com leite. João senta-se no sofá e empunha o violão.

O empresário Gil Lopes pega folhas de cartolina e uma caneta Pilot azul. Uma a uma, vai repassando as canções que pretende tocar: "Sem Compromisso", de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, "Pra Machucar meu Coração", "Morena Boca de Ouro" e "Isto Aqui, o que É", de Ary Barroso, "Segredo" e "Ave Maria no Morro", de Herivelto Martins. Lopes vai anotando e trocando sugestões com João sobre a ordem das canções.

O ajuste de som demora uma hora. Às 21h30, João volta ao palco, agora sozinho. Dedilha e sussurra trechos de canções. Aprova o que ouve: "Antes, a freqüência estava muito alta", diz, para o alívio da equipe técnica, que temia que o cantor desistisse de se apresentar em razão da qualidade do som.

Na volta ao camarim, continua a repassar as canções que tocará pouco depois. Batem na porta. Caminho para atender, mas, antes que o fizesse, a voz do outro lado se identifica: "João, é Astrud". Ele se levanta do sofá, corre até o banheiro e se tranca lá. A cantora Astrud Gilberto havia sido casada com João entre 1960 e 1964. Fico perdido, sem saber o que fazer.

Olho para Gil Lopes, como a pedir socorro. Ele decide abrir a porta. Astrud entra no camarim, perguntando por João. Lopes inclina a cabeça em direção ao banheiro. Ela bate na porta e diz: "Abra aí, João. Sou eu". Todos ficamos em silêncio por alguns segundos. Ela insiste: "João, abra. Sou eu, Astrud. O que tem aí eu já vi". Novo silêncio, mas, alguns segundos depois, a porta é destrancada.
Esperava que João saísse, mas foi a vez de Astrud entrar no banheiro. A porta é trancada novamente. Não dá para ouvir a conversa dos dois. Ficam lá por alguns minutos. Para tornar a situação menos esquisita, Gil Lopes se aproxima da bandeja de queijos. Pega um e, numa inversão de papéis, oferece-me outro. Agradeço. A porta do banheiro é destrancada. Astrud sai, despede-se de Lopes e deixa o camarim.

João reaparece, ajeitando a gravata. Pára à frente do espelho, arruma o nó. Depois, começa a ajeitar o cabelo. Passa a mão na língua para dominar mais facilmente alguns fios rebeldes. Tenta disfarçar a calvície. "O cabelo não tem jeito. Ih, tá mar! Ih, tá mar!", graceja João, numa piada que à época fazia sentido. Itamar Franco era o presidente da República.

Alguém da produção se aproxima. "Já posso entrar?", indaga João Gilberto. Vê Tom Jobim tocando piano em seu camarim e vai em sua direção. "Que ansiedade!", diz ao amigo.

João é chamado. Acompanhado apenas do violão, entra no palco do Teatro Municipal. É ovacionado por Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso, entre outros 2.000 convidados pela Brahma, patrocinadora do show e do especial de televisão que a Rede Globo levaria ao ar naquele final de ano.

Ar da Finlândia 

A incerteza sempre rondou a produção. Todos temiam que, em algum momento, João Gilberto desistisse. O orçamento estava na casa dos R$ 5 milhões, em valores atualizados. Incluía um sistema especial de ar-condicionado que a Brahma dizia ter importado da Finlândia, dotado de duas peculiaridades: nível de ruído mínimo e capacidade de resfriar a platéia sem atingir o palco.

João começa a cantar. O som do violão e da voz está baixo. Poucos conseguem ouvi-lo a contento. Quando João cantava "Eu Sambo Mesmo" (de Janet de Almeida), o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, sentado no balcão do teatro, irrompe aos gritos: "Aumenta o som. Não estou ouvindo nada!".

Todos temem que João, incomodado, encerre a apresentação e vá embora. Mas ele leva o samba até o fim. Três músicas depois, uma explosão acústica interrompe o cantor de novo. Ele esfrega as mãos no joelho e puxa aplausos.

Na coxia, o clima é de tensão. Aguardando o momento que deve entrar no palco, Tom Jobim anda de um lado para o outro, de modo lento, para não fazer barulho. Um técnico de som, já apavorado pelos problemas com João, sai em disparada à busca de um cabo, passa por Tom Jobim e, sem querer, esbarra numa torre de luz de alumínio no fundo do palco. Parte da torre cai, e o estrondo é ouvido, não só por João, mas por todo o Municipal.

Na hora do estrondo, João cantava "Sem Compromisso" (de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro). Ele finge que não ouve e segue adiante, para alívio de todos. Encerra a primeira parte do show e, sob aplausos frenéticos, sai do palco após cantar 17 músicas.

Chega à coxia sorrindo. João abraça Tom Jobim e diz, bem-humorado: "Vamos lá, Tom. Vai ser espetacular. Vamos impressionar". Entram juntos no palco. O Teatro Municipal os recebe em pé.

Após quase duas horas de show, João deixa no palco Jobim e sua banda. Segue apressado para o seu camarim, acompanhado do empresário Gil Lopes. Pega a caixa do violão, quando ouve Tom chamá-lo ao palco novamente. Olha para Lopes, que o estimula a voltar. Deixa a caixa do violão em cima do sofá e volta para apenas mais uma canção.

Findo o bis, João Gilberto sai apressado em direção ao camarim, pega a caixa do violão e segue até a porta dos fundos do Teatro Municipal, onde um carro com motor ligado e a porta traseira aberta o espera. Não falou mais com ninguém --nem mesmo com Tom Jobim.

(Plínio Fraga, Folha de São Paulo - matéria publicada em 14.08.2008).

domingo, 17 de junho de 2012

Livro Forma & Sentido Contemporâneo



Apresentar um elenco de sábios escolhidos por Antonio Cicero discorrendo sobre a Poesia nos dias de hoje não deixa de ser uma tarefa de grande prazer, a pretensão de encher a vida e a agenda das pessoas de poesia contrasta com a imposição tecnológica que conspira pela atenção integral e exclusiva dos seus artefatos. Não se trata de negá-los, mas de valorizar a dimensão humana avassaladora que a poesia resulta. Constitui-se também num esforço moral, no compartilhamento de um desejo de beleza, respeito e amor pela arte. Em resumo uma atitude prática frente às concepções redutoras que limitam o espaço e o alcance da poesia.
As comemorações octogenárias que temos celebrado nos revelam por exemplo que João Gilberto, o maior artista brasileiro tem a mesma idade de Marjorie Perloff e Michel Deguy, ilustres intelectuais que nos visitam e que despertam a curiosidade de universitários ansiosos por reservar presença nas suas palestras. Num tempo onde a longevidade humana se apresenta cada vez mais auspiciosa é igualmente propício observar como os sábios são forjados e o quanto é fascinante a convivência com eles.  Assuntos instigantes e que tratam de outra ordem ou dimensão como a Poesia, são capazes de juntar palestrantes longevos e jovens fascinados numa cumplicidade altamente conspiradora.

A cultura, diferentemente da construção civil, não tem na intensa alocação de mão de obra a força da economia que gera, mas na sua capacidade de prover os indivíduos de compreensão do que são e do que podem ser para a redenção de seus desejos e aspirações. A cultura no Rio de Janeiro pode se alastrar e ajudar a pensar o Brasil, assim como o mundo espera e observa qual será a novidade vinda do Brasil para além das nossas riquezas extrativas. Como dar melhor fim ao subsídio para produzir cultura senão o de adotar o critério do que pode nos transmitir esperança de viver melhor?
Forma e Sentido Contemporâneo considera que o conteúdo e o estilo de vida moderno indicam
novas necessidades culturais, o homem comum deve se tornar cada vez mais um homem sutil e diferenciado. Cabe portanto produzir eventos que o eduquem emocional e intelectualmente. É a nossa motivação.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A urgência da cultura

Em seu artigo hoje no Globo o colunista Merval Pereira em Pequim informa sobre o seminário que participa na Universidade Tsinghua, uma das melhores universidades do mundo ele nos diz. E disse mais: "...os chineses estão preocupados, neste estágio de seu desenvolvimento, com a disseminação de sua cultura pelo mundo, como parte imprescindível do projeto de transformar em nação que possa se colocar como protagonista na estrutura geopolítica de poder que está sendo redesenhada."
A seguir ele avalia que "ao contrário do pensamento ocidental de esquerda, e de setores da nossa diplomacia, os pensadores chineses de academias relevantes ...não querem se confrontar com o Ocidente, muito menos com os Estados Unidos. Querem é aproveitar a globalização para ocupar seu espaço no mundo."
Pronto, é uma maneira de ver a questão, o importante é a observação do caráter imprescindível da afirmação cultural e que isso nos inspire também a caminhar nesse sentido. Por que não?

o artigo na íntegra: O Globo 24/5/2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Antonio Poeta e Filósofo


Entrevista a Marcos Augusto Gonçalves sobre o livro "Poesia e filosofia"
A seguinte entrevista, dada a Marcos Augusto Gonçalves, foi publicada ontem no caderno "Ilustríssima" da Folha de São Paulo:

A ideia e a lira
Para Antonio Cicero, poesia e filosofia são nuvens diferentes
RESUMO O poeta e filósofo carioca Antonio Cicero comenta seu ensaio recém-lançado "Poesia e Filosofia", que reflete sobre os limites entre a atividade filosófica, feita de ideias e de caráter abstrato, e a prática poética, constituída de palavras e eminentemente concreta. Em suas palavras, trata-se de "nuvens diferentes". 

EM SUAS PALESTRAS e apresentações públicas, Antonio Cicero já se habituou a responder perguntas sobre letras de canções, poesia e filosofia, atividades que coexistem em seu universo intelectual e criativo. Se as semelhanças entre poema e letra de música são evidentes, no caso da filosofia e da poesia a distância que as separa é bem maior do que se poderia, irrefletidamente, supor. 
"Penso que são atividades humanas inteiramente diferentes uma da outra", afirma Cicero, 66, em seu novo livro, "Poesia e Filosofia" [Civilização Brasileira, 144 págs., R$ 34,90] , publicado na coleção Contemporânea, dirigida pelo pelo professor de literatura Evando Nascimento. 
O volume reúne argumentos para demonstrar, com base na reflexão e na experiência do autor, que poeta e filósofo podem até viver com a cabeça nas nuvens, como imagina o senso comum -mas nuvens diferentes: "A filosofia deve ser um empreendimento extremo da razão, a poesia, não". Enquanto o discurso da filosofia encerra uma proposição sobre as coisas, o valor da poesia, segundo Cícero, "não é dado pelo que fale sobre coisa alguma". 
Sua finalidade "é o poema, a obra poética, feita para ser fruída esteticamente". Ou, como respondeu o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-98) ao pintor Edgar Degas (1834-1917), que pretendia fazer poesia por ter muitas ideias: poemas são escritos com palavras, não com ideias. 
Cicero estudou filosofia no Rio de Janeiro, na década de 1960, concluiu o curso na Universidade de Londres e fez pós-graduação na Universidade Georgetown, nos EUA. 
Em 1995, publicou o ensaio filosófico "O Mundo desde o Fim" (Francisco Alves); três anos depois, veio o volume de poesia "Guardar" (1996), estreia em livro do poeta já conhecido pelas letras cantadas pela irmã Marina Lima. 
Poesia e filosofia continuaram sendo trabalhadas em canteiros de obras paralelos: em 2005, veio a antologia de ensaios "Finalidades sem Fim" (Companhia das Letras). Uma amostra de sua produção poética está na antologia que a EdUerj lançou em 2010, com apresentação de Alberto Pucheu. 
Na entrevista a seguir, resultado de conversas telefônicas e troca de e-mails, ele fala sobre o livro. 


Você afirma que um ensaio de filosofia exige sobretudo aplicação para desenvolver e explicar ideias, enquanto a poesia depende da dedicação do espírito, recursos, faculdades, esforços. Essa afirmação parte de uma experiência pessoal. Ela é generalizável? 
Talvez não seja a rigor universalizável, mas parece ser em certa medida generalizável, pois o fato é que, pelo menos desde Homero, muito mais poetas do que filósofos dão importância, na produção de poemas, ao que chamam de "inspiração", isto é, a algo que escapa de seu controle e de sua decisão racional. Em sua opinião um poema, a rigor, não serve para nada: ou sua leitura recompensa a si própria ou não tem nenhum valor. Você diria que essa afirmação se aplicaria às artes de uma maneira geral? 
Sim. [Paul] Valéry [1871-1945] dizia que um poema devia ser uma festa do intelecto. Penso que idealmente a apreciação de um poema enquanto poema é uma festa não apenas do intelecto, mas da interação de todas as nossas faculdades -razão, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor, intuição- entre si e com nossa experiência, cultura, conhecimento etc. Idealmente, o mesmo vale para a apreciação de todas as artes. Essa festa já vale por si. Você reitera a fórmula de Mallarmé, segundo a qual poesia se faz com palavras, e não com ideias. Os filósofos clássicos que expunham suas ideias sob a forma poética não faziam poesia, mas filosofia em verso? Você não poderia ser acusado de formalista?
 Seria uma acusação sem fundamento. Veja bem: o pintor Degas estava explicando que pensava poder escrever um poema, já que tinha muitas ideias. Mallarmé então respondeu que um poema não se escreve com ideias, mas com palavras. Invertamos a situação. Suponhamos que Mallarmé tivesse dito a Degas que pensava poder fazer uma pintura, já que tinha muitas ideias. Que lhe responderia Degas, com toda a probabilidade? Que uma pintura não se faz com ideias, mas com tinta e movimentos da mão e do pincel. Ou seja, quando Mallarmé diz a Degas que a poesia não se faz com ideias, mas com palavras, ele está dizendo que a poesia, não menos que a pintura, é arte, e não filosofia. Um poema é uma obra, um objeto, não menos que uma pintura. Esta é feita com tinta, mão, pincel; aquele, com palavras. É por essa razão que se pode estudar a filosofia de filósofos que não possuem obra, como Sócrates, mas não se pode falar da poesia de quem jamais haja feito um poema. No entanto, isso não quer dizer que um poema -ou uma pintura- não contenha ideias. Um poema é feito de palavras e ideias, formas e conteúdos. O que ocorre é que, num poema, as ideias são inseparáveis das palavras, e os conteúdos, das formas. Um poema não pode ser parafraseado, isto é, dito em outras palavras. Quanto aos filósofos pré-socráticos, que escreviam em versos, é preciso, de fato, não esquecer que uma sequência de versos não chega a ser necessariamente um poema, e que um poema não é necessariamente feito de uma sequência de versos. Na Grécia arcaica, escreviam-se não só obras de filosofia, mas também de medicina em versos. Essas obras não eram poemas, como, aliás, já observava Aristóteles, exatamente porque, ao contrário do que ocorre na poesia, nelas o conteúdo pode ser separado da forma, assim como as ideias, das palavras que as exprimem. É possível que se faça um poema filosófico inteiramente satisfatório como literatura e filosofia? 
Talvez o que tenha chegado mais perto disso seja o longo poema "Da Natureza das Coisas", de Lucrécio [c. 96 a.C.-c. 55 a.C.]. No entanto, o próprio Lucrécio considerava que seu maior mérito era ter exposto a filosofia de Epicuro em "luminosos versos, a tudo tocando com a graça das Musas". Além disso, a meu juízo, os trechos mais poéticos do poema não são os mais interessantes filosoficamente e vice-versa. A grande dificuldade é que a filosofia, quando maximamente ambiciosa, consiste num empreendimento racional, crítico, abstrato, enquanto o poema é sempre concreto, no sentido de consistir numa síntese indissociável de múltiplas determinações semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas, rítmicas etc. Assim, enquanto a ambiguidade, a anfibologia, a polissemia, a equivocação, a imprecisão, em suma, a "sujeira" linguística são características a serem evitadas (ou são tomadas como "males necessários") pela filosofia maximamente ambiciosa, elas são o próprio material com o qual a poesia trabalha. O que é mais difícil, traduzir poemas ou conceitos filosóficos? 
Traduzir poemas. Como, na poesia, o significado não se separa do significante, é a tradução de poemas que beira a impossibilidade. É por isso que o poeta Haroldo de Campos [1929-2003] empregava a palavra "transcriação" para a tentativa de tradução de poemas. Já os conceitos filosóficos são -ou devem ser- perfeitamente traduzíveis. A pretensão de que não o sejam não passa, a meu ver, de mistificação indigna. Filósofo e poeta não se aproximam ao serem personagens deslocados da lógica do desempenho que marca a vida contemporânea? Por esse ângulo sim, eles se aproximam. Não é à toa que o senso comum acha que tanto um quanto o outro vivem com a cabeça nas nuvens: para ele, nem um nem o outro têm o pé na Terra. No entanto, como mostro no livro, as nuvens do poeta não são normalmente as do filósofo. Enquanto este se interessa, por exemplo, pelo "ser enquanto ser", pela relação entre a matéria e a ideia, pela natureza da verdade etc., o poeta fala do amanhecer, do amor que sente por alguém, da morte que se aproxima, de certo tom de azul, dos sapatos usados, da rua que vê pela janela do ônibus... Se, a seu ver, poesia e filosofia são inteiramente distintas, o mesmo não se pode dizer da atividade do letrista e do poeta. Quais são as semelhanças e diferenças entre letra de canção e poema? A meu ver, a letra de canção é uma forma de poesia. Há uma diferença evidente, entretanto, entre um poema destinado a ser cantado e escutado (uma letra de canção) e um poema destinado a ser lido. É que este é autotélico: ele já constitui a obra de arte, a ser fruída por um leitor; já aquele é heterotélico: ele faz parte da canção, e é esta que é a obra de arte, a ser fruída por um ouvinte. Assim, para mim, uma coisa é fazer um poema para ser lido; outra coisa é fazer uma letra de canção. É que, quando faço um poema, penso apenas nele mesmo; mas quando faço uma letra de canção -e normalmente faço letras para melodias que algum compositor ou compositora me oferece-, faço-a para também corresponder às notas e ao espírito da melodia. Isso não quer dizer, porém, que um poema feito para ser lido seja necessariamente melhor do que uma letra de canção. A prova disso é que os poemas líricos da Grécia antiga, como os de Safo, Alceu e Anacreonte, que fazem parte importante do cânone ocidental de poesia, eram o que hoje chamamos de "letra de canção". Afinal, o próprio epíteto "lírico" vem de "lira". Outra prova disso é que um cancionista como Caetano Veloso, por exemplo, é com certeza um dos nossos maiores poetas.



domingo, 20 de maio de 2012

italianos

milano-GL
CI SI RIUNISCE ALLA MILANESE
SI MANGIA ALLA TOSCANA
SI PAGA ALLA ROMANA.
PERFETTA TRINITÁ DELLA RAGGIUNTA UNITÁ D'ITALIA.
(Orio Vergani)

sábado, 19 de maio de 2012

O patrocínio do Brasil

foto  gl
A questão poderia ser como fazer para estimular as empresas patrocinadoras a optar pelo conteúdo nacional com prioridade, vemos o Estado patrocinando o conteúdo nacional e as empresas privadas o conteúdo importado, exceção recente é para o Banco do Brasil que decidiu patrocinar Eric Clapton e Madonna…. Nessa situação faltam meios para o conteúdo nacional se afirmar e se reproduzir em seu próprio mercado uma vez que a política vigente não atua de modo a conceder-lhe prioridade. Não é o patrocínio que faz a arte nem a cultura, entendido como um meio ao que tem servido no Brasil? Qual o balanço?  Temos construído um ambiente com a presença hegemônica do conteúdo importado em todos os segmentos, nossos meios estão disponíveis para isso e a tendência é a valorização intensa desse conteúdo. O que fazer? Primeiro temos que saber se queremos que seja assim mesmo. Parece que sim, damos o mesmo subsídio fiscal para o importado ou para o nacional por exemplo. Os megaprojetos estruturantes da subjetividade são francamente de valorização do importado. Há na ponta da produção uma crescente vulgarização do conteúdo nacional, nossa expressão cultural tem ênfase equivocada com a difusão em escala da produção mais vulgar, rompendo com uma linha evolutiva que garantiu nossa presença e caráter global. O que vamos fazer para afirmar a produção do nosso conteúdo na competição global? Não temos ainda isso definido, temos perdido tempo, estamos entregues a um projeto hegemônico competente e poderoso e não temos tido crítica suficiente para enfrentá-lo e impor nossa presença original. Patrocínio é um meio, o problema não é ele mas onde ele atua e se reproduz. E porque.

sábado, 21 de abril de 2012

Rito de passagem

"Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho".
Lêdo Ivo

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Vitória de Darcy Ribeiro

NYC-foto GL
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"


Darcy RibeiroTentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"
Darcy Ribeiro

terça-feira, 17 de abril de 2012

Caetano Veloso e a Verdade Tropical

ilustração Trimano
 Caetano Veloso comenta o ensaio recém-publicado "Verdade Tropical: Um Percurso do Nosso Tempo", de Roberto Schwarz. Publicado na Ilustríssima da Folha de São Paulo, domingo 15 de abril de 2012.

 
Folha - Roberto Schwarz faz um misto de valorização literária e severa crítica ideológica de "Verdade Tropical", 15 anos depois da publicação. O que retém em sua leitura? 
Caetano Veloso - É envaidecedor que Schwarz tenha escrito tanto (e com tanta energia) sobre meu velho livro. Claro que não coincido com o grosso da crítica ideológica. No entanto, retenho a observação de que o argumento desenvolvido a partir da cena central de "Terra em Transe" seja, no livro, um tanto mal concebido. 
 
Por que Schwarz só publica o ensaio 15 anos depois do seu livro? 
Não sei. Talvez ele o tenha lido com grande atraso (não 15 anos de atraso, é claro) e demorado muito para decidir-se a discuti-lo publicamente. Talvez ele tenha tardado também em metabolizar o que leu. 
 
Por que o livro renasce agora, com a edição de bolso de um de seus capítulos e a crítica de Schwarz? 
Não sei. 
 
Como foi a recepção do livro nos países em que foi publicado? 
Foi publicado, em boas traduções, na Itália e na Espanha (e países de língua espanhola). A tradução francesa é horrível. A grega eu não sei ler. De qualquer modo, todas as traduções partem da edição americana (os direitos fora do Brasil e de Portugal são da Knopf), que deformou muito a estrutura do original. Todos os elogios literários que o livro mereceu de Roberto não seriam justificados para quem só lesse as traduções. 
Me lembro de que a "New York Times Book Review" deu resenha favorável. Ouço comentários positivos de amigos argentinos, espanhóis e italianos. Também de alguns gregos. Na França parece que, além da tradicional mania francesa de traduzir como quem corrige o original, deram o longo texto a pessoas totalmente desqualificadas intelectualmente: já que se trata de um livro de cantor pop, por que pedir a alguém que saiba ler e escrever para traduzir? 
 
Schwarz vê a relação dos tropicalistas com a esquerda como uma "comédia de desencontros", na qual haveria mais afinidades do que divergências. Seu livro descreve longamente as divergências, e Schwarz agora as reitera. Ainda é possível falar em afinidades? 
Claro que há e sempre houve afinidades. Gil e eu, além de Tom Zé e Rogério Duprat, sempre fomos "de esquerda". Nossos amigos foram sempre majoritariamente de esquerda. Na altura do tropicalismo deu-se uma virada em mim, e também em Gil, pelo menos, que exigia repensar tudo por conta própria, desfazendo adesões automáticas. O maior inimigo era esse automatismo. 
A cena de "Terra em Transe" é positiva porque expõe a quebra do automatismo ideológico a que artistas e intelectuais se viam presos. Quando o protagonista fala, o tom blasfemo revela tratar-se de um momento liberador. Claro que, uma vez olhando as coisas mais livremente, os males da esquerda apareceriam. 
 
O ensaio atribui a você uma "generalização para a esquerda do nacionalismo superficial dos estudantes que o vaiavam" e a visão da "esquerda como obstáculo à inteligência". Desde então, que renovação você vê na esquerda do ponto de vista cultural? 
Toda cartilha ideológica, pode ser -e frequentemente é- obstáculo à inteligência. Eu tinha amigos na extrema esquerda que gostavam do que eu fazia e nada opunham ao tropicalismo. 
Já contei em minha coluna no "Globo" como quase dei apoio logístico ao grupo de Marighella, através de minha amiga Lurdinha, uma guerrilheira que foi torturada e a quem [o delegado Sérgio Paranhos] Fleury se refere, numa entrevista, como a pessoa mais corajosa que ele conheceu. 
Aliás, Hélio Oiticica, Glauber e Zé Celso eram de esquerda, além de Rubens Gerchman, Zé Agrippino e Rogério Duarte. O "desbunde" foi sobretudo um evento interno ao mundo das esquerdas. Hoje em dia, quando Delfim é defensor de Lula e Dilma e se opõe a FH, gosto da revista "Fevereiro", de Ruy Fausto, e detesto blogs como o de Paulo Henrique Amorim. 
Sempre me pergunto por que Roberto Schwarz ou Marilena Chaui nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte (não vale dizer que a "grande imprensa já diz"). Por que Lula e Tarso Genro mandaram de volta, num avião venezuelano, os atletas cubanos que tinham pedido asilo político ao Brasil? Isso é admissível? Ninguém na esquerda reclama de nada disso? 
Os esforços intelectuais de [Theodor] Adorno para igualar a vida americana ao Terceiro Reich e à União Soviética só servem para provar repetidas vezes que as liberdades nas democracias liberais são suspeitas: a ostensiva falta de liberdade em países comunistas nunca é combatida, nem eloquentemente, nem cedo. 
Quando eu era moço, intelectuais de esquerda dizerem-se anti-stalinistas representava um piso mínimo de elegância: quase nunca passava de uma declaração para se poder continuar sendo comunista. Não havia (como Tony Judt mostrou que não havia na França) um esforço crítico, por parte de intelectuais de esquerda, de se opor aos estados policiais. 
É interessante notar que Zizek elogia o imperialismo chinês no Tibete e desculpa as paradas fascistas da Coreia do Norte. Nossos elegantes uspianos nada dizem. 
 
Qual foi a novidade em termos de crítica ao tropicalismo no Brasil e no exterior? 
Não leio quase nada sobre tropicalismo. Às vezes esse movimento é citado em publicações sobre música popular, às vezes em artigos acadêmicos (de estudos sobre América Latina ou língua portuguesa). Nada me impressiona muito. 
 
Augusto de Campos e Ferreira Gullar polemizaram em torno de acontecimentos dos anos 1950 e 60, o país discute a Comissão da Verdade, torturadores têm sofrido "esculachos" na porta de casa. A conta dos anos 1960 e 70 não fecha? 
Que conta fecha? Mas vamos andando. O ser humano é um desequilibrador. Pessoalmente, sou pela Comissão da Verdade. Há um trecho crucial em "Verdade Tropical", que Schwarz sintomaticamente ignora, em que conto o quanto aprendi sobre a verdade da sociedade brasileira ao ouvir, na cadeia, urros de dor de torturados, os quais não eram nossos companheiros de prisão política. Havia quem dissesse que se tratava de presos políticos vindos de outros quartéis. Mas chegou-se à conclusão de que eram presos comuns, ladrões da Zona Norte, bandidos. 
Pois bem, antes da ditadura, durante e depois, esses maus tratos vêm se dando nas delegacias e prisões civis e militares. Se não denunciarmos (e mesmo punirmos) os torturadores que trabalhavam para o Estado, não teremos a saúde social mínima necessária para começar a acabar com isso. 
 
Há um paralelo entre o público dos festivais e os comentaristas de internet e blogueiros de hoje? 
Deve haver. Mas não interessa. 
 
O que pensa da Comissão da Verdade e da Lei da Anistia? 
Senti que o modelo espanhol da Anistia serviria para o Brasil. Hoje sou totalmente pela Comissão da Verdade e não acho que torturadores devam ser perdoados. Os guerrilheiros foram punidos (inclusive com tortura e morte). É enganoso equiparar os dois tipos de crime. 
 
Você é retratado como um memorialista "comprometido com a vitória da nova situação, para a qual o capitalismo é inquestionável". Como responde à acusação de "conservadorismo" político? 
Deixei de temer palavras como "conservador" ou "de direita", como se fossem xingamentos que ostracizam, em 1967. Minha teimosia em permanecer no campo da esquerda vem de minha crença na possibilidade de mudar para melhor o jeito de a gente viver sobre a Terra. Não descarto sequer a eventualidade de alguma violência. Mas estou certo de que o que se chama de esquerda também atrapalha muito. 
O mito do Brasil e de sua oportunidade de originalidade me põe numa situação em que posso sonhar mais alto, pondo os horrores das revoluções e seus desdobramentos sob crítica. Por essa razão me atraem mais as sugestões de Mangabeira Unger do que as repetições da esquerda uspiana. 
Ele abre espaço para a originalidade do Brasil. Para mim isso é fatal: somos originais, seremos originais ou desapareceremos. O capitalismo não é inquestionável: que a gasolina americana tivesse sido enriquecida com chumbo porque isso a fazia mais rentável, e que o empresário que usou essa vantagem tenha mantido em segredo a descoberta de que o chumbo era prejudicial à saúde pública para não ver cair o lucro; e que, depois de essa descoberta ter-se tornado pública, a gasolina americana tenha reduzido gradativamente até zero seu teor de chumbo, mas a brasileira não, por razões de lucro (com todas as implicações de acumulação de capital e de reafirmação de poderes imperialistas), é algo que expõe a que graus de irracionalidade e de desumanidade pode chegar uma organização social que se submeta à exclusiva força da grana. Sou contra. 
Mas não quero que os que lutam contra isso possam ganhar poderes autocráticos. Uma revolução feita a partir da originalidade benigna de um Brasil de sonho deveria não precisar ser sangrenta e poderia, de qualquer modo, orientar os serviços que alguém queira prestar à Justiça de um jeito diferente daquele que tem sido desenvolvido pelos movimentos revolucionários da esquerda convencional. Estes têm levado à autocracia e a Estados policiais. Sou contra. 
Além disso, quando se diz "capitalismo" o que é mesmo que se está querendo dizer? O capítulo sobre o conceito no livro de Mangabeira é instigante. E Lacan disse uma vez que "o inconsciente é capitalista". 
 
Schwarz critica o "amor aos homens da ditadura" expresso por Gilberto Gil ao tomar ayahuasca e comenta os seus elogios à letra de "Aquele Abraço": "A lição aplicada pelos militares havia surtido efeito". Como vê essa avaliação severa? 
Esse parágrafo de Schwarz é cruel e tolo. A prisão me pôs mais profundamente em inimizade com o projeto dos militares de direita que tomaram o Brasil. A descrição dos solavancos por que passamos não poderia ser desinfetada para agradar aos revolucionários de gabinete. Sou muito franco e apaixonado pela clareza e pela luz. 
Gosto mais do esclarecimento do que da Dialética do Esclarecimento, que tanto obscurece. (Aliás, desconfio dessa escolha da palavra "esclarecimento" em lugar de "Iluminismo".) 
A lição aplicada pelos militares surtiu efeito em mim: me fez mais realista, mais conhecedor dos pesos concretos da vida. Foi sob a ditadura, sobretudo na prisão, que aprendi a odiar o odiável em nossa sociedade. 
 
Para o ensaísta, há uma discrepância entre as visões de "Verdade Tropical" sobre o Brasil pré-64: ora é descrito como um "ascenso socializante", com sua experiência em Santo Amaro e em Salvador, ora como "um período incubador de intolerância e ameaça à liberdade". Você enxerga essa discrepância? 
Eu poderia ter sido um garoto de esquerda, sem desconfianças a respeito sequer do stalinismo. Mas não fui. Me atraiu o livro de Luís Carlos Maciel sobre Beckett, Kafka e Ionesco: a esquerda que eu conhecia era lukacsiana e ninguém falava em Adorno em 1963 em Salvador (embora se falasse muito em Gramsci, o que era pioneiro). 
Poderia ter sido um garoto assim e, depois, descoberto que nos países comunistas (não só na URSS e seus satélites, mas na China de Mao, em Cuba, na Coreia do Norte) o Estado desrespeitava oficialmente os mais básicos direitos humanos -e ter me revoltado contra o projeto comunista. 
Mas eu era um garoto desconfiado da "ditadura do proletariado", além de ser um sujeito pacato da baixa classe média que sentia natural horror pelo aspecto violento das revoluções.
Descobrir que a experiência do "socialismo real" era de fazer temer os esboços de implantação do comunismo entre nós não foi uma surpresa assustadora. Foi um gradual reconhecimento da complexidade das coisas. Isso aparece em meu livro com todas as idas e vindas por que minha mente passou. Com as nuances e sem evitar as questões que não ficaram resolvidas dentro de mim. 
Não é um livro de propaganda ideológica. É um relato em que as reflexões relembradas -ou as sugeridas pela lembrança- acompanham cada passo. 
 
Você se reconhece na descrição que o crítico faz de seu "traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo"? 
Gosto de atrito. É a base do sexo. Mas não rejeito o antagonismo. 
Sou nitidamente contra o Brasil ter devolvido os atletas cubanos. Sou nitidamente contra o manifesto dos militares reformados. Sou nitidamente contra Lula ter apoiado a eleição de Ahmadinejad antes de o próprio Irã decidir se as eleições tinham sido fraudadas ou não.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O AGADÁ DA TRANSFORMAÇÃO

foto Daryan


Em meu peito vazio de despeito
Oxum fincou o seu ixé
sou o peixe mergulhado
no canto do pássaro odidê
pousado na folha da vida
trinando a ternura
que aconchega a criança
Ó peixe dourado que vais nadando
os dias e as noites da minha sorte
emblema de Oxum me levando
águas de Oxalá me lavando
no banho lustral da minha morte
Existo em minha natureza Ori
levedado pelos Orixás
embora o costado dos ancestrais
clame
a costa dos escravos
proclame
o cravo cravado no lombo
me tombando no tombo
da contra-costa rebelada do meu axé
inflamando na chaga do congo
a chama incendiária do quilombo
basta ouvir o som grave do rum
o repicar do rumpi
o picar agudo do lé
e as irmãs negras portadoras do sofrimento
os homens moldados nos crepes ancestrais
em uníssono clamor
de convulsivo furor
desde a degradação e o opróbrio
desfraldam a bandeira
úmida do sangue negro derramado
no combate vermelho sempre continuado
pela integridade verde da herança nativa poluída
Somos a semente noturna do ritmo
a consciência amarga da dor
florescida aos toques anunciadores
da perenidade das coisas vivas
(...)
Ouçamos o pipocar do couro retesado
(ó agadá da transformação)
rompendo a couraça do insensível mundo
branco
na sola dos pés sangrentos
temos dançando
o madrigal da escravidão
o minueto do tráfico
o fado do racismo
agora na pele flamejante dos tambores
dancem eles o nosso baticum de guerra
até despontar aquela aurora
de dançar o afoxé da nossa batalha final vitoriosa
(...)
Tempo de viver
(ensina Ajacá)
é tempo de morrer
uns já estão mortos
vivendo
nós estaremos vivos
morrendo
Morrer enquanto cintila no meu peito
o ixé áureo de Oxum
enquanto caminho a ancestralidade da minha
terra
nas pegadas temerárias de Ogum
ao fio do agadá
transformo a queixa muda das irmãs negras
neste canto marcial de esperança
de cada soluço teu
irmão
faço uma bala de fuzil
impeço que a bondade amoleça tua revolta
e tua dança perca o embalo da trincheira
tornando tua coreografia
grávida de símbolos
em vil moeda de espetáculo mercantil
Vem do fundo escuro do tambor
esse aflito olhar magoado
(não vencido apenas derrotado)
das irmãs e irmãos em África
fixo olhar pungente
absorvendo a beleza vital do meu corpo
incrustação do ixé
projeção amorosa de Oxum
em minha origem plantado
por desígnio paterno de Olorum
o olhar a devolvendo
à intensidade e pungência
da antiga luta comum
processada à regência
do agadá transformador
e do nosso cálido
recíproco
e solidário amor
Ogunhiê!
Salvador, 14 de janeiro de 1982
(Dia da lavagem do Senhor do Bonfim).


 (Abdias Nascimento)