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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A mentira e a Nova Censura na Wikipedia

Peter Clark

A Wikipedia que é associada ao Criativo Comum quer crescer no Brasil, recentemente contratou para sua direção geral uma colaboradora do Overmundo do Hermano Vianna. Este, na ânsia de “vender o peixe” nesse sábado escreveu sobre a enciclopedia não poupando elogios até  afirmar “que nunca houve experiência coletiva igual na história da Humanidade”...
Bem, poderia ser um exagero se não fosse absoluto non sense, Hermano finge quando diz que desconfia de qualquer informação, quer passar independência não revelando os patrocínios que sustentam pontos de vista. Hermano faz parecido como quando insiste tanto e por tanto tempo com o CC. Na Wikipedia qualquer foto para ser editada tem necessariamente que passar no CC.
Mas até aí a gente entende, são comprometimentos profissionais e comerciais e Hermano poderia relevar mais considerando o que a Wikipedia chama de Conflito de Interesses: uma maneira sutil de censurar contribuições que seus editores (censores) julgam se tratar de mera propaganda ou divulgação em causa própria. Pois Hermano no seu artigo não faz outra coisa senão um jabá em causa própria.
A Wikipedia na verdade não é o que parece, longe disso, atua selecionando o que deve ser veiculado e impede a circulação da informação, pratica discaradamente a Nova Censura e se estabelece na falsidade de que se trata de uma enciclopedia livre.
Hermano engana ao aconselhar e afirmar que o chefe de redação sumiu quando na verdade a Wikipedia entregou na mão de seus censores a autoridade de apagar qualquer colaboração que lhes der na telha, estribados em conceitos subjetivos ou simplesmente particulares.
Como instrumento do mundo livre a Wikipedia deixa muito a desejar, está constituída de modo autoritário e na verdade conspira contra a liberdade ao censurar, seus editores usam codinomes como “Navalha”, “Macho Carioca”, entre outros, e praticam o desrespeito e a intolerância.
O verbete de João Gilberto é um exemplo, em português ou em inglês, das práticas adotadas num desrespeito flagrante pela memória da cultura nacional. Basta visitá-lo e observar em Discussão o embate que se trava para melhorar e informar no verbete.
O caso de Philip Roth é sintomático e o tal "escândalo" fabricado de Gibraltar um mero factóide inverossímel, objeto de divulgação do que parece mas não é.
É inadmissível a organização de uma Nova Censura entre nós.
5/out/2012.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Harmonia

foto GL
Até os anos 40 e mesmo na década de 50, a harmonização de uma melodia no Brasil era quase sempre indicada de maneira bastante rudimentar. Eram as chamadas "primeira do tom" (um acorde perfeito de tônica), "segunda do tom" (acorde perfeito da dominante) e "terceira do tom com sétima" (acorde da subdominante acrescido da sétima). Só posteriormente a notação musical passou a ser a mesma do jazz, dos acordes cifrados com as letras identificadoras A, B, C, D, E, F e G, respectivamente para as notas lá, si, dó, ré, mi, fá e sol, chamadas tônicas do acorde.

Essa notação básica facilitou muito o ensino e a leitura de harmonia, beneficiando quem seguiu carreira de músico a partir de então. Mas, tanto num caso como no outro, ela não indica a disposição das notas do acorde, nem qual deve ser a nota mais grave, chamada fundamental. Pode ser a tônica, a do meio ou a mais aguda. Num acorde de dó maior perfeito, cuja cifra é C, o natural é que o dó, sendo a tônica, seja a fundamental. Mas nada impede que se faça uma inversão do acorde para mi-sol-dó, ou sol-dó-mi, em vez de dó-mi-sol. Essas inversões, que se tornaram mais freqüentes na música brasileira a partir da Bossa Nova, podem eventualmente dar uma sensação de dissonância, sobretudo se o executante usar a liberalidade, que lhe é concedida, de nem tocar a tônica, eliminando-a e deixando-a subentendida. Isso gera uma impressão de certa instabilidade, de leveza, como se a base harmônica estivesse pairando no ar e não repousando.

Além do ritmo, os acordes invertidos são outra marca no violão de João Gilberto. Seu conhecimento de harmonia teria se desenvolvido bastante em Porto Alegre, nas proveitosas horas de convívio musical com o avançado professor e maestro Armando Albuquerque, amigo de Radamés Gnattalli. No Rio, a aproximação com Tom Jobim colaborou para aprimorar o requinte de seus acordes no violão, aplicados aos arranjos dos primeiros discos, nos quais Tom foi o arranjador e estava envolvido totalmente. De fato, a atuação de Tom Jobim foi preponderante nos rumos da harmonia da Bossa Nova, pois, como ele vinha de uma experiência como arranjador, desenvolvera a técnica de vestir as músicas para o cantor, ou seja, criar novas harmonias que dessem coloridos diferentes a canções já gravadas.

Quando Sérgio Ricardo assumiu seu posto como pianista da boate Posto 5, foi Tom quem lhe mostrou o que era possível fazer com a harmonia, "sentou no piano e mostrou a mesma melodia - eu me lembro, era o 'Feitiço da Vila' [de Noel Rosa] - com uma harmonia que ele fazia. Com muita paciência, ele me mostrou como se encadeavam aqueles acordes de nonas e décimas primeiras. Fui vendo um mundo novo dentro da música".

Ainda assim, é justo reconhecer que o grande mestre de harmonia de João Gilberto foi ele mesmo, na sua disciplina férrea em tocar dezenas, centenas de vezes uma canção até atingir o ponto ideal, o equilíbrio. Ao esmiuçar obstinadamente a natureza de cada canção, ele acabava encontrando um só acorde de três ou quatro notas que simplificavam a seqüência original sem ferir a natureza da canção, embelezando-a como jamais se ouvira antes. Tinha-se a sensação de um novo caminho, que passava a ser definitivo, pois não havia nada que pudesse ser trocado, suprimido ou acrescentado.

Ao mesmo tempo, o realce dado ao violão de João Gilberto era um fato incomum para um disco de cantor. Quando foi gravar Chega de Saudade, deixou os técnicos atordoados ao exigir um microfone para ele e outro para o violão. Com esse destaque, a harmonia passou a ser percebida muito mais claramente nos seus discos, e assim, junto com a estupefação pela marcação rítmica, vinha outra semelhante, pelas harmonias invertidas, muitas vezes sem a tônica como fundamental; ocasionalmente, ela nem mesmo estava no acorde. Mais um elemento para dar leveza. É o que acontece, por exemplo, em "Desafinado", com a quinta no bordão em vez da tônica. A dissonância fica mais evidente, mais provocante.

A despeito de suas composições "Bim Bom" e "Hô-bá-lá-lá" possuírem uma estrutura harmônica simples, a maneira de dispor as notas dos acordes através de inversões e o acréscimo de acordes de passagens e acidentados acrescentaram uma sofisticação muito menos evidente nos discos de outros cantores.

João abominava tocar os acordes em arpejo, isto é, uma corda depois da outra. As notas eram feridas todas ao mesmo tempo, num bloco, e dessa maneira o violão soava como o acompanhamento completo, a orquestra de um violão, com quatro notas de cada vez, emitidas pelo dedo polegar, pelo indicador, pelo médio e pelo anular. Esse som de violão, com ritmo e harmonia, era metade do som que João buscava. Para ser uma entidade, faltava a outra metade: sua voz.

Mello, Zuza H. João Gilberto. São Paulo: Publifolha, 2001. Coleção Folhaexplica.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

De olho nas Olimpíadas do Rio


R.Gerchman

Vieram com Simonal, aquele abraço, francamente...um engano total nossa manifestação em Wembley, irrelevante não fosse a presença de Pelé...nossa música vencedora foi feita por Tom Jobim e está aí pelo mundo viajando...quando o olhar do mundo focar no Rio a trilha sonora deve partir de Tom Jobim, nossa vitória. Não faltam grandes artistas para realizar isso: Edu Lobo, Jacques Morelenbaum, Francis Hime, Jaime Além e muitos outros...e a música brasileira é vitoriosa no mundo e sua maior expressão é jobiniana...precisamos revelar isso sempre.
Gostei do visual, teve um tom mágico, gostei dos índios também, somos muito índios basta ver a nossa maravilhosa lutadora do Piauí, linda, somos negros índios e brancos, é bom mostrar isso para o mundo. Gostei da menção construtiva, foi bonito o visual...mas a música...os brits mostraram o que querem com a música, começam sempre pelos Beatles, é claro, assim sobre todas as coisas, e depois descem com tudo, mostram de tudo mesmo. Mas o alicerce é claro. Podemos num rompante de humildade cívica adotar o modelo, afinal parece que dá certo, ou não… Um tiquinho de Villa para limpar a barra com os xiitas e, geléia geral. É outro caminho.
Se de fato Tom e Vinicius, cariocas nativos, fizeram a síntese do Rio que com o baiano João virou síntese nacional e isso se tornou a nossa obra de arte mais importante do século, então temos um alicerce. Isso está constituído. Podemos acrescentar Ari Barroso e Caymmi, o Tropicalismo, e as outras coisas, mas o alicerce lá. Se cultura é confronto, é guerra, então temos que nos armar de nossa potência. É muito sério isso, é nossa primeira Olimpíada num mundo que olha para isso, temos de cuidar do legado, ensiná-lo, sem isso não temos saída, nem avanço. 
Não gostei do Sorriso chapliniano, logo o Rio que é uma sujeira e onde seguranças dão e levam garrafadas, e senti a ausência do clichê das mulheres bonitas e semi nuas. Aqui é assim, com pouca roupa, é quente. 
Hermano Vianna no Globo pensa diferente. Quando Ferreira Gullar fala da necessidade da arte porque a realidade é pouca, Hermano pega isso e invoca Game of Thrones, confunde tudo. Seria como chamar um gibi de ready-made... E fenômeno! Acusa os brasileiros de " inseguros por criar muitas barreiras para nos defender do que vem de fora"... está falando de quem? Dos brasileiros mesmo? Se refere ao Criativo Comum? Afinal, onde estão essas barreiras se só importamos tudo??? Ainda é pouco? 
Mas fala dessas coisas para chegar na cerimônia olímpica preocupado com o "nacionalismo" da festa britânica. Que novidade? Os Brits estão  sempre em festas nacionalistas, o tempo todo, acabaram de celebrar a regata da Rainha na qual se prepararam durante um ano. A seguir as Olimpíadas e semana que vem tem outra...é assim. Cansaço? Decadência? Há quantos séculos? Estamos em plena perplexidade diante do check mate musical: só a música anglo americana domina, circula, produz riquezas. E é tão interessante ouvir falar do fim da indústria da música depois do show dos ingleses na Olimpíada que foi música o tempo todo em todos os lados, mostraram mesmo que a decadência é papo dos “sociólogos”…
O rompante de humildade cívica seguindo o modelo brit de celebração é pra esquecer com nosso Hermano. Ele quer mesmo a geléia geral e já começou a sugeri-la, vide o artigo no Globo. Ele quer "...esquecer o que é realmente brasileiro" ( o Francisco Bosco, outro articulista no mesmo espaço, quer que esqueçamos nossa hegemonia no futebol, inventou outro esporte), Hermano aposta na ... mistura ( será um novíssimo gênero?). Nada de brasileirismos, isso é para Brits e Chinos...ou seja, estamos condenados a comer macarrão com peixe, xis tudo, como se isso não fosse apenas indigência e não um paladar preferido. Hermano quer a festa na rua, nem se liga para a segurança, o trânsito, os turistas, que se danem, somos diferentes e o cheiro de xixi faz parte...ora essa, é insuportável esses populismo avesso de intelectual em apartamento com ar condicionado e varandão se regozijando com o visual da massa, que mijada e fedida usufrui da única organização que lhe é possível, nenhuma, contando apenas com a a sua alegria atávica. Isso é condenação.
Mas eu disse do desgosto em ver o Sorriso na festa olímpica, mesmo gostando tanto dele, porque minha preferência seria mostrar que pobre a gente põe na escola, mais que o orgulho em mostrá-los amenos, boa gente. A vitória do pobre seria sua emancipação, não a cooptação. Projetar uma imagem chapliniana dócil e resignada da sua condição servil, nesse caso, no nosso caso, nesse momento histórico, não me parece mais adequado culturalmente.
O lixeiro e o segurança, não podem ser nossa expressão do urbano nem serve para expressar nossa contemporaneidade. E, francamente, não somos assim, talvez quiséssemos ser algum dia, mas não somos. O lixeiro entre nós o que é? Muito diferente por exemplo dos bombeiros americanos, e o que é a imundice das nossas cidades? Um desastre, uma sujeira impressionante. Então é mentira o lixeiro boa gente. E quanto a nossa capacidade de projetar a alegria na avenida com nossa gente pobre fantasiada, esse traço cultural é mais complexo. Gostei do Freixo diferenciando cultura e turismo, e olhando as Escolas de Samba com outros olhos.
Mas é verdade que o Sorriso é essa capacidade inesperada de produzir arte, mas melhor que não fosse assim e tivéssemos mais escolas e nossos bailarinos se multiplicassem em companhias de balé vitoriosas, o novo mundo produzindo um balé contemporâneo de primeira. Sorriso seria o que?
O futebol nos deu essa explosão de escolinhas de futebol por toda parte, em todo lado tem uma escolinha de futebol e nossa abundância em produzir craques é famosa. Isso é bacana, os meninos jogando bola nas escolinhas, como antes faziam nos terrenos baldios nas cidades. Seria bacana escolinhas Antonio Adolfo por todo Brasil, ou similares, mas como fazemos com a música?
E eu vi Chico Science...mas é tudo isso mesmo? Vamos acreditar então que a nação zumbi é isso tudo? Zumbi é tudo, mas isso é outra coisa.

eu fico então com João, Tom e Vinicius sobretudo.

domingo, 8 de julho de 2012

O Mordomo de João Gilberto

O MORDOMO DE JOÃO GILBERTO NO "SHOW NÚMERO UM - JOÃO e ANTÔNIO"

O interessante relato de um jornalista que, por uma noite, deu uma de mordomo do pai da Bossa Nova - João Gilberto:


Em 1992, fazia 30 anos que ele não se apresentava com Tom Jobim no Rio. O último show com os dois no palco havia sido em 2 de agosto de 1962, na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, ao lado de Vinicius de Moraes, Milton Banana e Os Cariocas, tendo sido batizado de "O Encontro".

O anúncio da apresentação de João Gilberto e Tom Jobim no Teatro Municipal em 7 de dezembro foi o suficiente para antever que aquele seria o acontecimento cultural do ano. Seria o reencontro. Os amigos davam versões conflitantes sobre há quanto tempo João e Tom não se falavam. Uns diziam que desde 1977 eles não conversavam; outros, que o encontro mais recente havia sido em 1986, um intervalo entre seis e 15 anos na convivência dos dois.

Um dos meus chefes na Folha me chamou e disse: "Você vai ser o mordomo do João Gilberto". Ele havia conseguido, de maneira não clara para mim, assegurar à direção do Teatro Municipal que eu era o mordomo particular de João Gilberto e aos assessores do cantor que eu era o melhor mordomo da equipe do Teatro Municipal.

Conseguira ainda infiltrar o jornalista Fernando Molica, então também na sucursal do Rio da Folha, no papel de assessor de um dos empresários do show.

Ele foi claro para nós dois: em nenhum momento nos textos que produzíssemos sobre o show de João Gilberto e Tom Jobim poderíamos dizer a forma pela qual obtivemos as informações, já que teríamos acesso a momentos privados dos dois artistas, que desconheciam que éramos jornalistas.


Às 18h30 do dia 5 de dezembro de 1992, Molica está no hotel Caesar Park, em Ipanema, para acompanhar um dos dois ensaios dos artistas para o espetáculo. "Nada de abraços e carinho sem ter fim: sorrisos, um aperto de mão, um arrastado 'oi, Tom'", descreveu ele o momento em que João Gilberto e Tom Jobim se reencontraram após anos.

Frutas, água, uísque... 

Na segunda-feira seguinte, data do show, é a minha vez. Às 17h, chego ao Teatro Municipal e me identifico na portaria: Alcides, o mordomo de João Gilberto. Dão-me a chave do camarim dele e me perguntam se está tudo de acordo: champanhe Veuve Clicquot, queijos, pães, frutas, água mineral São Lourenço, café com leite.

Vi Tom Jobim chegar às 19h, enquanto aguardava no camarim de João. Simpático, sorri e entra na porta ao lado. Sua mulher, Ana Jobim, a tudo e a todos comandava, diligente com o horário, os músicos e até a marca do uísque e a quantidade de pedras de gelo no copo.

Uma hora depois, João Gilberto chega, segurando o próprio violão, acompanhado do empresário Gil Lopes. Cumprimenta-me rapidamente, eu pergunto se quer algo de especial. Ele pede só um copo de água. Em seguida, vai em direção ao camarim de Tom Jobim.

Ele está ao piano no camarim, com um copo de Logan ao lado das teclas, próximo do chapéu Panamá. Saúda o amigo: "Oi, João". "Oi, Tonzinho", responde, carinhoso, João.

Não conversam muito. Vão direto ao palco do teatro, com portas ainda fechadas, para passar o som. João sobe em um tablado com tapete persa sobre o palco, ficando dois palmos mais alto que o local em que está o piano de Tom Jobim.

Ajeita-se no banquinho, descansa os pés em um pedaço de madeira de um palmo e dedilha o violão. Canta trechos de músicas sem concluir nenhuma delas. Diz ao microfone: "O violão está opaco". Tom fica em silêncio.

Os técnicos correm de um lado para o outro. Não conseguem melhorar o som a contento de João. O engenheiro-chefe diz a ele que atrasaria em meia hora o início do show para que pudesse acertá-lo. João volta ao camarim. Pede a mim um café com leite. João senta-se no sofá e empunha o violão.

O empresário Gil Lopes pega folhas de cartolina e uma caneta Pilot azul. Uma a uma, vai repassando as canções que pretende tocar: "Sem Compromisso", de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, "Pra Machucar meu Coração", "Morena Boca de Ouro" e "Isto Aqui, o que É", de Ary Barroso, "Segredo" e "Ave Maria no Morro", de Herivelto Martins. Lopes vai anotando e trocando sugestões com João sobre a ordem das canções.

O ajuste de som demora uma hora. Às 21h30, João volta ao palco, agora sozinho. Dedilha e sussurra trechos de canções. Aprova o que ouve: "Antes, a freqüência estava muito alta", diz, para o alívio da equipe técnica, que temia que o cantor desistisse de se apresentar em razão da qualidade do som.

Na volta ao camarim, continua a repassar as canções que tocará pouco depois. Batem na porta. Caminho para atender, mas, antes que o fizesse, a voz do outro lado se identifica: "João, é Astrud". Ele se levanta do sofá, corre até o banheiro e se tranca lá. A cantora Astrud Gilberto havia sido casada com João entre 1960 e 1964. Fico perdido, sem saber o que fazer.

Olho para Gil Lopes, como a pedir socorro. Ele decide abrir a porta. Astrud entra no camarim, perguntando por João. Lopes inclina a cabeça em direção ao banheiro. Ela bate na porta e diz: "Abra aí, João. Sou eu". Todos ficamos em silêncio por alguns segundos. Ela insiste: "João, abra. Sou eu, Astrud. O que tem aí eu já vi". Novo silêncio, mas, alguns segundos depois, a porta é destrancada.
Esperava que João saísse, mas foi a vez de Astrud entrar no banheiro. A porta é trancada novamente. Não dá para ouvir a conversa dos dois. Ficam lá por alguns minutos. Para tornar a situação menos esquisita, Gil Lopes se aproxima da bandeja de queijos. Pega um e, numa inversão de papéis, oferece-me outro. Agradeço. A porta do banheiro é destrancada. Astrud sai, despede-se de Lopes e deixa o camarim.

João reaparece, ajeitando a gravata. Pára à frente do espelho, arruma o nó. Depois, começa a ajeitar o cabelo. Passa a mão na língua para dominar mais facilmente alguns fios rebeldes. Tenta disfarçar a calvície. "O cabelo não tem jeito. Ih, tá mar! Ih, tá mar!", graceja João, numa piada que à época fazia sentido. Itamar Franco era o presidente da República.

Alguém da produção se aproxima. "Já posso entrar?", indaga João Gilberto. Vê Tom Jobim tocando piano em seu camarim e vai em sua direção. "Que ansiedade!", diz ao amigo.

João é chamado. Acompanhado apenas do violão, entra no palco do Teatro Municipal. É ovacionado por Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso, entre outros 2.000 convidados pela Brahma, patrocinadora do show e do especial de televisão que a Rede Globo levaria ao ar naquele final de ano.

Ar da Finlândia 

A incerteza sempre rondou a produção. Todos temiam que, em algum momento, João Gilberto desistisse. O orçamento estava na casa dos R$ 5 milhões, em valores atualizados. Incluía um sistema especial de ar-condicionado que a Brahma dizia ter importado da Finlândia, dotado de duas peculiaridades: nível de ruído mínimo e capacidade de resfriar a platéia sem atingir o palco.

João começa a cantar. O som do violão e da voz está baixo. Poucos conseguem ouvi-lo a contento. Quando João cantava "Eu Sambo Mesmo" (de Janet de Almeida), o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, sentado no balcão do teatro, irrompe aos gritos: "Aumenta o som. Não estou ouvindo nada!".

Todos temem que João, incomodado, encerre a apresentação e vá embora. Mas ele leva o samba até o fim. Três músicas depois, uma explosão acústica interrompe o cantor de novo. Ele esfrega as mãos no joelho e puxa aplausos.

Na coxia, o clima é de tensão. Aguardando o momento que deve entrar no palco, Tom Jobim anda de um lado para o outro, de modo lento, para não fazer barulho. Um técnico de som, já apavorado pelos problemas com João, sai em disparada à busca de um cabo, passa por Tom Jobim e, sem querer, esbarra numa torre de luz de alumínio no fundo do palco. Parte da torre cai, e o estrondo é ouvido, não só por João, mas por todo o Municipal.

Na hora do estrondo, João cantava "Sem Compromisso" (de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro). Ele finge que não ouve e segue adiante, para alívio de todos. Encerra a primeira parte do show e, sob aplausos frenéticos, sai do palco após cantar 17 músicas.

Chega à coxia sorrindo. João abraça Tom Jobim e diz, bem-humorado: "Vamos lá, Tom. Vai ser espetacular. Vamos impressionar". Entram juntos no palco. O Teatro Municipal os recebe em pé.

Após quase duas horas de show, João deixa no palco Jobim e sua banda. Segue apressado para o seu camarim, acompanhado do empresário Gil Lopes. Pega a caixa do violão, quando ouve Tom chamá-lo ao palco novamente. Olha para Lopes, que o estimula a voltar. Deixa a caixa do violão em cima do sofá e volta para apenas mais uma canção.

Findo o bis, João Gilberto sai apressado em direção ao camarim, pega a caixa do violão e segue até a porta dos fundos do Teatro Municipal, onde um carro com motor ligado e a porta traseira aberta o espera. Não falou mais com ninguém --nem mesmo com Tom Jobim.

(Plínio Fraga, Folha de São Paulo - matéria publicada em 14.08.2008).

domingo, 17 de junho de 2012

Livro Forma & Sentido Contemporâneo



Apresentar um elenco de sábios escolhidos por Antonio Cicero discorrendo sobre a Poesia nos dias de hoje não deixa de ser uma tarefa de grande prazer, a pretensão de encher a vida e a agenda das pessoas de poesia contrasta com a imposição tecnológica que conspira pela atenção integral e exclusiva dos seus artefatos. Não se trata de negá-los, mas de valorizar a dimensão humana avassaladora que a poesia resulta. Constitui-se também num esforço moral, no compartilhamento de um desejo de beleza, respeito e amor pela arte. Em resumo uma atitude prática frente às concepções redutoras que limitam o espaço e o alcance da poesia.
As comemorações octogenárias que temos celebrado nos revelam por exemplo que João Gilberto, o maior artista brasileiro tem a mesma idade de Marjorie Perloff e Michel Deguy, ilustres intelectuais que nos visitam e que despertam a curiosidade de universitários ansiosos por reservar presença nas suas palestras. Num tempo onde a longevidade humana se apresenta cada vez mais auspiciosa é igualmente propício observar como os sábios são forjados e o quanto é fascinante a convivência com eles.  Assuntos instigantes e que tratam de outra ordem ou dimensão como a Poesia, são capazes de juntar palestrantes longevos e jovens fascinados numa cumplicidade altamente conspiradora.

A cultura, diferentemente da construção civil, não tem na intensa alocação de mão de obra a força da economia que gera, mas na sua capacidade de prover os indivíduos de compreensão do que são e do que podem ser para a redenção de seus desejos e aspirações. A cultura no Rio de Janeiro pode se alastrar e ajudar a pensar o Brasil, assim como o mundo espera e observa qual será a novidade vinda do Brasil para além das nossas riquezas extrativas. Como dar melhor fim ao subsídio para produzir cultura senão o de adotar o critério do que pode nos transmitir esperança de viver melhor?
Forma e Sentido Contemporâneo considera que o conteúdo e o estilo de vida moderno indicam
novas necessidades culturais, o homem comum deve se tornar cada vez mais um homem sutil e diferenciado. Cabe portanto produzir eventos que o eduquem emocional e intelectualmente. É a nossa motivação.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A urgência da cultura

Em seu artigo hoje no Globo o colunista Merval Pereira em Pequim informa sobre o seminário que participa na Universidade Tsinghua, uma das melhores universidades do mundo ele nos diz. E disse mais: "...os chineses estão preocupados, neste estágio de seu desenvolvimento, com a disseminação de sua cultura pelo mundo, como parte imprescindível do projeto de transformar em nação que possa se colocar como protagonista na estrutura geopolítica de poder que está sendo redesenhada."
A seguir ele avalia que "ao contrário do pensamento ocidental de esquerda, e de setores da nossa diplomacia, os pensadores chineses de academias relevantes ...não querem se confrontar com o Ocidente, muito menos com os Estados Unidos. Querem é aproveitar a globalização para ocupar seu espaço no mundo."
Pronto, é uma maneira de ver a questão, o importante é a observação do caráter imprescindível da afirmação cultural e que isso nos inspire também a caminhar nesse sentido. Por que não?

o artigo na íntegra: O Globo 24/5/2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Antonio Poeta e Filósofo


Entrevista a Marcos Augusto Gonçalves sobre o livro "Poesia e filosofia"
A seguinte entrevista, dada a Marcos Augusto Gonçalves, foi publicada ontem no caderno "Ilustríssima" da Folha de São Paulo:

A ideia e a lira
Para Antonio Cicero, poesia e filosofia são nuvens diferentes
RESUMO O poeta e filósofo carioca Antonio Cicero comenta seu ensaio recém-lançado "Poesia e Filosofia", que reflete sobre os limites entre a atividade filosófica, feita de ideias e de caráter abstrato, e a prática poética, constituída de palavras e eminentemente concreta. Em suas palavras, trata-se de "nuvens diferentes". 

EM SUAS PALESTRAS e apresentações públicas, Antonio Cicero já se habituou a responder perguntas sobre letras de canções, poesia e filosofia, atividades que coexistem em seu universo intelectual e criativo. Se as semelhanças entre poema e letra de música são evidentes, no caso da filosofia e da poesia a distância que as separa é bem maior do que se poderia, irrefletidamente, supor. 
"Penso que são atividades humanas inteiramente diferentes uma da outra", afirma Cicero, 66, em seu novo livro, "Poesia e Filosofia" [Civilização Brasileira, 144 págs., R$ 34,90] , publicado na coleção Contemporânea, dirigida pelo pelo professor de literatura Evando Nascimento. 
O volume reúne argumentos para demonstrar, com base na reflexão e na experiência do autor, que poeta e filósofo podem até viver com a cabeça nas nuvens, como imagina o senso comum -mas nuvens diferentes: "A filosofia deve ser um empreendimento extremo da razão, a poesia, não". Enquanto o discurso da filosofia encerra uma proposição sobre as coisas, o valor da poesia, segundo Cícero, "não é dado pelo que fale sobre coisa alguma". 
Sua finalidade "é o poema, a obra poética, feita para ser fruída esteticamente". Ou, como respondeu o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-98) ao pintor Edgar Degas (1834-1917), que pretendia fazer poesia por ter muitas ideias: poemas são escritos com palavras, não com ideias. 
Cicero estudou filosofia no Rio de Janeiro, na década de 1960, concluiu o curso na Universidade de Londres e fez pós-graduação na Universidade Georgetown, nos EUA. 
Em 1995, publicou o ensaio filosófico "O Mundo desde o Fim" (Francisco Alves); três anos depois, veio o volume de poesia "Guardar" (1996), estreia em livro do poeta já conhecido pelas letras cantadas pela irmã Marina Lima. 
Poesia e filosofia continuaram sendo trabalhadas em canteiros de obras paralelos: em 2005, veio a antologia de ensaios "Finalidades sem Fim" (Companhia das Letras). Uma amostra de sua produção poética está na antologia que a EdUerj lançou em 2010, com apresentação de Alberto Pucheu. 
Na entrevista a seguir, resultado de conversas telefônicas e troca de e-mails, ele fala sobre o livro. 


Você afirma que um ensaio de filosofia exige sobretudo aplicação para desenvolver e explicar ideias, enquanto a poesia depende da dedicação do espírito, recursos, faculdades, esforços. Essa afirmação parte de uma experiência pessoal. Ela é generalizável? 
Talvez não seja a rigor universalizável, mas parece ser em certa medida generalizável, pois o fato é que, pelo menos desde Homero, muito mais poetas do que filósofos dão importância, na produção de poemas, ao que chamam de "inspiração", isto é, a algo que escapa de seu controle e de sua decisão racional. Em sua opinião um poema, a rigor, não serve para nada: ou sua leitura recompensa a si própria ou não tem nenhum valor. Você diria que essa afirmação se aplicaria às artes de uma maneira geral? 
Sim. [Paul] Valéry [1871-1945] dizia que um poema devia ser uma festa do intelecto. Penso que idealmente a apreciação de um poema enquanto poema é uma festa não apenas do intelecto, mas da interação de todas as nossas faculdades -razão, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor, intuição- entre si e com nossa experiência, cultura, conhecimento etc. Idealmente, o mesmo vale para a apreciação de todas as artes. Essa festa já vale por si. Você reitera a fórmula de Mallarmé, segundo a qual poesia se faz com palavras, e não com ideias. Os filósofos clássicos que expunham suas ideias sob a forma poética não faziam poesia, mas filosofia em verso? Você não poderia ser acusado de formalista?
 Seria uma acusação sem fundamento. Veja bem: o pintor Degas estava explicando que pensava poder escrever um poema, já que tinha muitas ideias. Mallarmé então respondeu que um poema não se escreve com ideias, mas com palavras. Invertamos a situação. Suponhamos que Mallarmé tivesse dito a Degas que pensava poder fazer uma pintura, já que tinha muitas ideias. Que lhe responderia Degas, com toda a probabilidade? Que uma pintura não se faz com ideias, mas com tinta e movimentos da mão e do pincel. Ou seja, quando Mallarmé diz a Degas que a poesia não se faz com ideias, mas com palavras, ele está dizendo que a poesia, não menos que a pintura, é arte, e não filosofia. Um poema é uma obra, um objeto, não menos que uma pintura. Esta é feita com tinta, mão, pincel; aquele, com palavras. É por essa razão que se pode estudar a filosofia de filósofos que não possuem obra, como Sócrates, mas não se pode falar da poesia de quem jamais haja feito um poema. No entanto, isso não quer dizer que um poema -ou uma pintura- não contenha ideias. Um poema é feito de palavras e ideias, formas e conteúdos. O que ocorre é que, num poema, as ideias são inseparáveis das palavras, e os conteúdos, das formas. Um poema não pode ser parafraseado, isto é, dito em outras palavras. Quanto aos filósofos pré-socráticos, que escreviam em versos, é preciso, de fato, não esquecer que uma sequência de versos não chega a ser necessariamente um poema, e que um poema não é necessariamente feito de uma sequência de versos. Na Grécia arcaica, escreviam-se não só obras de filosofia, mas também de medicina em versos. Essas obras não eram poemas, como, aliás, já observava Aristóteles, exatamente porque, ao contrário do que ocorre na poesia, nelas o conteúdo pode ser separado da forma, assim como as ideias, das palavras que as exprimem. É possível que se faça um poema filosófico inteiramente satisfatório como literatura e filosofia? 
Talvez o que tenha chegado mais perto disso seja o longo poema "Da Natureza das Coisas", de Lucrécio [c. 96 a.C.-c. 55 a.C.]. No entanto, o próprio Lucrécio considerava que seu maior mérito era ter exposto a filosofia de Epicuro em "luminosos versos, a tudo tocando com a graça das Musas". Além disso, a meu juízo, os trechos mais poéticos do poema não são os mais interessantes filosoficamente e vice-versa. A grande dificuldade é que a filosofia, quando maximamente ambiciosa, consiste num empreendimento racional, crítico, abstrato, enquanto o poema é sempre concreto, no sentido de consistir numa síntese indissociável de múltiplas determinações semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas, rítmicas etc. Assim, enquanto a ambiguidade, a anfibologia, a polissemia, a equivocação, a imprecisão, em suma, a "sujeira" linguística são características a serem evitadas (ou são tomadas como "males necessários") pela filosofia maximamente ambiciosa, elas são o próprio material com o qual a poesia trabalha. O que é mais difícil, traduzir poemas ou conceitos filosóficos? 
Traduzir poemas. Como, na poesia, o significado não se separa do significante, é a tradução de poemas que beira a impossibilidade. É por isso que o poeta Haroldo de Campos [1929-2003] empregava a palavra "transcriação" para a tentativa de tradução de poemas. Já os conceitos filosóficos são -ou devem ser- perfeitamente traduzíveis. A pretensão de que não o sejam não passa, a meu ver, de mistificação indigna. Filósofo e poeta não se aproximam ao serem personagens deslocados da lógica do desempenho que marca a vida contemporânea? Por esse ângulo sim, eles se aproximam. Não é à toa que o senso comum acha que tanto um quanto o outro vivem com a cabeça nas nuvens: para ele, nem um nem o outro têm o pé na Terra. No entanto, como mostro no livro, as nuvens do poeta não são normalmente as do filósofo. Enquanto este se interessa, por exemplo, pelo "ser enquanto ser", pela relação entre a matéria e a ideia, pela natureza da verdade etc., o poeta fala do amanhecer, do amor que sente por alguém, da morte que se aproxima, de certo tom de azul, dos sapatos usados, da rua que vê pela janela do ônibus... Se, a seu ver, poesia e filosofia são inteiramente distintas, o mesmo não se pode dizer da atividade do letrista e do poeta. Quais são as semelhanças e diferenças entre letra de canção e poema? A meu ver, a letra de canção é uma forma de poesia. Há uma diferença evidente, entretanto, entre um poema destinado a ser cantado e escutado (uma letra de canção) e um poema destinado a ser lido. É que este é autotélico: ele já constitui a obra de arte, a ser fruída por um leitor; já aquele é heterotélico: ele faz parte da canção, e é esta que é a obra de arte, a ser fruída por um ouvinte. Assim, para mim, uma coisa é fazer um poema para ser lido; outra coisa é fazer uma letra de canção. É que, quando faço um poema, penso apenas nele mesmo; mas quando faço uma letra de canção -e normalmente faço letras para melodias que algum compositor ou compositora me oferece-, faço-a para também corresponder às notas e ao espírito da melodia. Isso não quer dizer, porém, que um poema feito para ser lido seja necessariamente melhor do que uma letra de canção. A prova disso é que os poemas líricos da Grécia antiga, como os de Safo, Alceu e Anacreonte, que fazem parte importante do cânone ocidental de poesia, eram o que hoje chamamos de "letra de canção". Afinal, o próprio epíteto "lírico" vem de "lira". Outra prova disso é que um cancionista como Caetano Veloso, por exemplo, é com certeza um dos nossos maiores poetas.



sábado, 19 de maio de 2012

O patrocínio do Brasil

foto  gl
A questão poderia ser como fazer para estimular as empresas patrocinadoras a optar pelo conteúdo nacional com prioridade, vemos o Estado patrocinando o conteúdo nacional e as empresas privadas o conteúdo importado, exceção recente é para o Banco do Brasil que decidiu patrocinar Eric Clapton e Madonna…. Nessa situação faltam meios para o conteúdo nacional se afirmar e se reproduzir em seu próprio mercado uma vez que a política vigente não atua de modo a conceder-lhe prioridade. Não é o patrocínio que faz a arte nem a cultura, entendido como um meio ao que tem servido no Brasil? Qual o balanço?  Temos construído um ambiente com a presença hegemônica do conteúdo importado em todos os segmentos, nossos meios estão disponíveis para isso e a tendência é a valorização intensa desse conteúdo. O que fazer? Primeiro temos que saber se queremos que seja assim mesmo. Parece que sim, damos o mesmo subsídio fiscal para o importado ou para o nacional por exemplo. Os megaprojetos estruturantes da subjetividade são francamente de valorização do importado. Há na ponta da produção uma crescente vulgarização do conteúdo nacional, nossa expressão cultural tem ênfase equivocada com a difusão em escala da produção mais vulgar, rompendo com uma linha evolutiva que garantiu nossa presença e caráter global. O que vamos fazer para afirmar a produção do nosso conteúdo na competição global? Não temos ainda isso definido, temos perdido tempo, estamos entregues a um projeto hegemônico competente e poderoso e não temos tido crítica suficiente para enfrentá-lo e impor nossa presença original. Patrocínio é um meio, o problema não é ele mas onde ele atua e se reproduz. E porque.

sábado, 21 de abril de 2012

Rito de passagem

"Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho".
Lêdo Ivo

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O AGADÁ DA TRANSFORMAÇÃO

foto Daryan


Em meu peito vazio de despeito
Oxum fincou o seu ixé
sou o peixe mergulhado
no canto do pássaro odidê
pousado na folha da vida
trinando a ternura
que aconchega a criança
Ó peixe dourado que vais nadando
os dias e as noites da minha sorte
emblema de Oxum me levando
águas de Oxalá me lavando
no banho lustral da minha morte
Existo em minha natureza Ori
levedado pelos Orixás
embora o costado dos ancestrais
clame
a costa dos escravos
proclame
o cravo cravado no lombo
me tombando no tombo
da contra-costa rebelada do meu axé
inflamando na chaga do congo
a chama incendiária do quilombo
basta ouvir o som grave do rum
o repicar do rumpi
o picar agudo do lé
e as irmãs negras portadoras do sofrimento
os homens moldados nos crepes ancestrais
em uníssono clamor
de convulsivo furor
desde a degradação e o opróbrio
desfraldam a bandeira
úmida do sangue negro derramado
no combate vermelho sempre continuado
pela integridade verde da herança nativa poluída
Somos a semente noturna do ritmo
a consciência amarga da dor
florescida aos toques anunciadores
da perenidade das coisas vivas
(...)
Ouçamos o pipocar do couro retesado
(ó agadá da transformação)
rompendo a couraça do insensível mundo
branco
na sola dos pés sangrentos
temos dançando
o madrigal da escravidão
o minueto do tráfico
o fado do racismo
agora na pele flamejante dos tambores
dancem eles o nosso baticum de guerra
até despontar aquela aurora
de dançar o afoxé da nossa batalha final vitoriosa
(...)
Tempo de viver
(ensina Ajacá)
é tempo de morrer
uns já estão mortos
vivendo
nós estaremos vivos
morrendo
Morrer enquanto cintila no meu peito
o ixé áureo de Oxum
enquanto caminho a ancestralidade da minha
terra
nas pegadas temerárias de Ogum
ao fio do agadá
transformo a queixa muda das irmãs negras
neste canto marcial de esperança
de cada soluço teu
irmão
faço uma bala de fuzil
impeço que a bondade amoleça tua revolta
e tua dança perca o embalo da trincheira
tornando tua coreografia
grávida de símbolos
em vil moeda de espetáculo mercantil
Vem do fundo escuro do tambor
esse aflito olhar magoado
(não vencido apenas derrotado)
das irmãs e irmãos em África
fixo olhar pungente
absorvendo a beleza vital do meu corpo
incrustação do ixé
projeção amorosa de Oxum
em minha origem plantado
por desígnio paterno de Olorum
o olhar a devolvendo
à intensidade e pungência
da antiga luta comum
processada à regência
do agadá transformador
e do nosso cálido
recíproco
e solidário amor
Ogunhiê!
Salvador, 14 de janeiro de 1982
(Dia da lavagem do Senhor do Bonfim).


 (Abdias Nascimento)


domingo, 18 de março de 2012

João do Brasil

O maior artista brasileiro, João Gilberto, foi esquecido duas vezes na mesma semana.
A primeira no Jornal da Globo desta sexta feira, em matéria registrando as gravações de Águas de Março. A mais célebre de todas foi realizada em 1973 no álbum com seu nome e acompanhado de Miucha que vocaliza a segunda parte em inglês. Inexplicavelmente essa interpretação foi omitida por Nelson Mota na apresentação da pretensa história da canção.
A segunda na tímida referência deste domingo no jornal O Globo em artigo sobre a canção Garota de Ipanema, que foi apresentada em 1962 ao mundo por João Gilberto acompanhado por Tom no piano, Stan Getz e revelando sua esposa na época, Astrud Gilberto, num dos melhores discos de todos os tempos, Getz/Gilberto. A cantora Astrud Gilberto, depois dessa gravação com João, passou a ser reconhecida mundialmente como a Garota de Ipanema e assim se apresentou e foi nominada em toda sua longa carreira.
As duas músicas, Águas de Março e Garota de Ipanema, tiveram suas mais ilustres e geniais interpretações pela voz e violão de João Gilberto que as apresentou ao mundo e foi imediatamente saudado, ambas viraram clássicos da canção popular mundial.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O jogo da pirataria

fotoGL Miami
Desinformação pode ser imoral, mas funciona. Este fato ficou evidente na recente ofensiva de Google, Yahoo, You-Tube e outros gigantes agregadores de conteúdo contra projetos de lei que combatem a pirataria digital nos Estados Unidos, Espanha e outros países europeus.
A desinformação, neste caso, está em dizer que estes projetos de lei representam uma ameaça à liberdade de expressão. Isto equivale a um político corrupto no Brasil protestar que a lei da Ficha Limpa seria uma ameaça às liberdades civis.
Metáforas à parte, há três aspectos da campanha coordenada dos gigantes da internet contra as leis antipirataria que merecem uma reflexão:
A primeira é o estranho paradoxo de as mesmas empresas repetidamente flagradas secretamente violando a privacidade dos seus milhões de usuários assumirem o papel de paladinos da liberdade.
A segunda são as declarações indignadas destas corporações de que leis antipirataria equivalem à “censura”, expressão que evoca a atuação repressiva dos regimes ditatoriais do Irã e da China na internet. Mas desde quando é “censura” a ação de um juiz de direito numa sociedade democrática, tomada após ouvir os argumentos das partes e considerar as evidências do caso?
E a terceira, e mais instigante, é o fato singelo de que, na campanha dos gigantes da internet contra as leis antipirataria, nunca é mencionado que algumas destas mesmas empresas indiretamente faturam centenas de milhões de dólares com a pirataria.
É isto mesmo. Google, Yahoo e outros agregadores se apropriam indiretamente do trabalho de atores, diretores, jornalistas, compositores, cantores, produtores, escritores e editores para faturar com publicidade.
Esta afirmativa pode parecer extrema. Afinal, será que Sergey Brin e Larry Page, os jovens bilionários que criaram o Google com o genial slogan “do no evil”, seriam capazes de tamanha desfaçatez?
Esta é a deixa para a entrada em cena de um personagem que surgiu do anonimato nas últimas semanas: Kim Dotcom, criador do site de armazenamento e distribuição de conteúdo, especialmente conteúdo pirata, Megaupload.
Dotcom foi preso em janeiro na sua mansão na Nova Zelândia. Com seus helicópteros, coleção de carros de luxo e dezenas de milhões de dólares, ele representa o lado escondido da distribuição gratuita do trabalho de terceiros pela internet.
Ao contrário do estereótipo difundido por alguns, a distribuição ilegal via internet não é obra de jovens libertários compartilhando arquivos com amigos — isto é tão somente um proverbial boi de piranha. A pirataria na realidade é fruto do trabalho de Kim Dotcom e outros como ele, que vendem espaço publicitário aproveitando o tráfego de internautas gerado pelas descargas ilegais; assim, protegidos por uma suposta defesa da liberdade de expressão, ficam milionários explorando o trabalho de uns e a ingenuidade de outros.
E onde figuram Sergey Brin e Larry Page neste cenário? Google não oferece diretamente filmes e livros piratas.  Mas o Megaupload não tem funcionários vendendo publicidade mundo afora. A publicidade veiculada no Megaupload e outros sites de descarga ilegal é distribuída pelas plataformas de mídia oferecidas pelos grandes agregadores da internet, tais como a Google Adwords. Para cada milhão de dólares dos anunciantes faturado pelo Megaupload, outros tantos são depositados nas contas dos agregadores.
Para escritores, compositores, atores, diretores, músicos — zero.  O Megaupload não é o único site que fatura com o tráfego ilegal. Existem dezenas de outros. Mais de 90% das descargas piratas de livros brasileiros se originam no site americano 4shared, que, em parceria com os agregadores, fatura alto se apropriando do trabalho de escritores brasileiros.
O uso demagógico da defesa da liberdade de expressão atrasou a aprovação das leis antipirataria nos parlamentos dos Estados Unidos e da Europa. Mas, inevitavelmente, estas leis serão aprovadas porque são fundamentais para a continuidade da produção intelectual, cultural, científica e jornalística. E, sim, para preservar a genuína diversidade e liberdade de expressão.
A sociedade e o legislativo brasileiro não podem ignorar esta questão. Se cederem à pressão da desinformação em prol da impunidade dos piratas, a produção cultural e científica nacional vai definhar e crescerá o consumo no Brasil da produção cultural, jornalística e científica estrangeira, devidamente protegida pela lei nos seus países de origem. 

texto de ROBERTO FEITH , jornalista e editor de livros, publicado no Globo de 27 de fevereiro de 2012.


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Galvão

Quando diante do relevo meu amigo exclamou: "Sérgio Camargo???!!!" lhe respondi: "João Carlos Galvão!" A vitória do trabalho de Galvão se expressa também pela lembrança que projeta. Se Camargo é um marco na arte brasileira seu discurso não parou aí, Galvão que foi seu assistente nos anos 60 em Paris, avançou e já confunde os olhares ávidos por nomear autoria. Ao lado de Camargo podemos eleger Galvão como "Mestre" do construtivismo nacional. E como ele mesmo diz: "a tridimensionalidade é uma vocação brasileira".

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ser Brasil

"Quero ser Brasil. Não quero ser Rolling Stones. Quero ser Carlinhos Brown com meus erros, com meu tambor desafinado".
Douro- foto GL

sábado, 28 de janeiro de 2012

Filme brasileiro

ilustração Trimano
No auge da juventude de minha geração, quando estávamos convencidos de que íamos mudar o mundo com nossos filmes, costumávamos andar sempre em bando, como acontece quando compartilhamos utopias. Àquela altura, o Laboratório Líder era uma espécie de sede social do Cinema Novo em formação, de nossos encontros e reuniões realizados entre o casarão da Rua Álvaro Ramos e, na calçada oposta, um botequim modesto do qual nunca se soube o nome, pois só o chamávamos de Bar da Líder.

No simpático pé-sujo se faziam negócios e se trocavam informações, se discutia o futebol e se desenvolviam teorias sofisticadíssimas sobre o cinema em geral e o brasileiro em particular, tomando chope gelado e café requentado, comendo ovo cozido pintado de várias cores (a maior parte das vezes, cor-derosa), servido por Raimundo, garçom nordestino de bigodes fartos e temível corpanzil, que não respeitava ninguém. Por ali, reinava soberano sobre todas as tribos Nelson Pereira dos Santos, que tinha terminado “Mandacaru vermelho”, interpretado por ele próprio e Miguel Torres, ator que teria sido Fabiano em “Vidas secas”, não tivesse morrido tão cedo.

Nelson tinha ido para a Bahia filmar o romance de Graciliano Ramos, seu velho sonho, mas uma chuva inesperada tornou a caatinga verdejante durante meses. Para não perder a viagem e os recursos levantados, improvisou outro filme, um roteiro escrito em parceria com Miguel à medida que as filmagens avançavam, uma rapsódia romântica passada num Nordeste cuja secura não estava na geografia, mas na alma de seus personagens.

Era pelos cantos do Bar da Líder que trocávamos confidências sobre namoradas, família e outras amarguras. Era naquelas mesas bambas que contávamos uns aos outros os filmes que queríamos fazer. Foi ali que ouvi de Glauber Rocha, pela primeira vez, sua profecia recorrente e não realizada de que morreria aos 24 anos, como Castro Alves, o poeta baiano que nascera no mesmo dia que ele, 14 de março. Foi ali que Paulo César Saraceni decretou que o Cinema Novo não tinha nada a ver com idade, o Cinema Novo era uma questão de verdade e amizade. O que tinha tudo a ver com o Bar da Líder.

Uma noite, alertados por Paulo César, corremos atrás de Glauber que, numa crise de angústia e pessimismo, jogava os copiões de “Barravento” no lixo da Líder. Nelson ajudou a recolher os copiões do lixo e terminou montando “Barravento”, como faria depois com o episódio de Leon Hirszman em “Cinco vezes favela”. Passamos a invadir em bando a sala de montagem dos dois filmes, para não perdermos essas aulas magnas de cinema.

Dentro ou fora do Bar da Líder, Nelson era o grande mestre celebrado e respeitado por todos, não se fazia nada de importante sem que fosse consultado.

A diferença de idade entre ele e nós, que hoje não significa nada, era às vezes incômoda. Ela criava uma relação de certa cerimônia, para a qual contribuía sua ironia suave mas perfunctória, uma doçura que às vezes se transformava de repente em discurso agressivamente crítico. Certa vez, numa mesa do botequim, cercado de colegas, levei um desses seus esporros monumentais porque falei mal de um filme brasileiro recémlançado, realizado por um cineasta que não era muito admirado por nossa turma. Embora ferido, não tive coragem de responder-lhe. Mas também nunca mais esqueci seus argumentos em torno da responsabilidade que temos sobre todo e qualquer filme brasileiro, a necessidade de vê-los com um olhar responsável.

O que dissermos sobre um filme de Scorsese ou Spielberg não fará a menor diferença para a vida de seus realizadores. Mas a existência de um filme brasileiro depende de nós e de nossa disposição diante dele. É preciso ao menos um pouco mais de cuidado ao reagirmos ao filme, porque não se trata de perguntar se é possível fazer cinema no Brasil, e sim se isso é desejável. Se queremos mesmo que exista um cinema brasileiro.
Agora Nelson nos dá um presente surpreendente, uma afirmação positiva dessa ideia, com seu documentário (?), em parceria com Dora Jobim, “A música segundo Antonio Carlos Jobim”, em cartaz em todo o Brasil.

Nem reparei que era um documentário, que não havia tramas, personagens ou diálogos nesse filme, para mim estava sendo contada a história de um dos gênios brasileiros do século 20, através de sua produção artística. E, com essa história, registrava-se na tela uma cronologia do que este país já teve de melhor, como exemplo do que poderemos sempre ser.

Todos os momentos de “A música segundo Antonio Carlos Jobim” são imprescindíveis e inesquecíveis, do jeito que estão lá. Da voz inteligente e doce da bossa nova de Nara Leão à energia espetacular e dramática de Elis Regina, da consagração ao lado de Frank Sinatra à cantora alemã sem balanço a cantar “Garota de Ipanema”, é como se todos nós tivéssemos feito esse filme. Só um grande mestre do cinema é capaz de realizar um sonho desses.

CACÁ DIEGUES ( publicado no Globo 28/jan/2012)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

ídolo Total - Caetano Veloso

foto Teresa Eugênia

Nenhum outro artista brasileiro foi mais decisivo para a minha formação pessoal. Nenhum dos que também o foram resistiu mais ao crivo crítico da minha mente amadurecendo através dos anos. João Gilberto lançou uma luz angelicalmente suave e diabolicamente penetrante sobre o passado e o futuro da música chamada popular brasileira e nada pode ser visto aí com propriedade se não se leva em consideração essa luz. Toda a cultura e mesmo toda a vida dos brasileiros foi atingida por ela e por ela alquimicamente transformada. O tropicalismo foi um movimento romântico-destrutivo, mas a bossa nova foi um movimento clássico construtivo. Se Antonio Carlos Jobim é o mais exuberante e genial compositor-músico surgido da bossa-nova, João Gilberto é o mago que parece ter criado a possibilidade de tudo isso acontecer. Com o seu simples modo de tratar a palavra cantada, ele faz tanto pela língua portuguesa quanto os seus maiores poetas. Compreendendo e sentindo como ninguém a plasticidade do português falado no Brasil, ele age a um tempo desbravadora e normativamente sobre a sua história.  Fazendo sempre a mesma coisa que nunca é a mesma. João não pára de nos deleitar e surpreender, acalmar e intrigar. A escolha do repertório, o gosto das cadências harmônicas, a duração das notas da melodia dentro do tempo, o senso do silêncio, o jeito único de fazer soar o violão, tudo faz com que seu canto e seu toque sejam sempre uma lição e uma oração.  Uma nova lição e uma eterna oração.  Fico emocionado só de saber que João Gilberto vai cantar em Portugal. Nesse momento da conversa luso-brasileira, o diálogo deverá atingir a sua maior profundidade.
texto de Caetano Veloso em junho de 1984 para os 25 anos de carreira de João Gilberto, produzido pela ShowBras e celebrado em Lisboa 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O tempo da pirataria já passou

Palavras simples em português, “sopa” e “pipa” são acrônimos, em inglês, de duas leis em discussão no Congresso americano capazes de incendiar a internet. “Stop On-line Piracy Act” e “Protect Intellectual Property Act” , algo como leis do “Pare a Pirataria On-line” e da “Proteção da Propriedade Intelectual”, encontram-se, pela ordem, na Câmara dos Representantes e no Senado. Na quarta, surgiu o primeiro sinal, para o grande público, da reação de grupos conhecidos no mundo digital aos projetos de lei: o site da Wikipedia, nos Estados Unidos, entre outros, iniciou um blecaute de 24 horas contra Sopa e Pipa. O Google colocou uma tarja preta, e assim por diante. Alegam os opositores das propostas, semelhantes nos propósitos, que se trata de uma indevida ingerência do Estado no mundo “livre” da internet, algo como uma “censura”. É um exagero equiparar as leis a um ato de censura, mas o termo pegou, circula na rede de Computadores e a manifestação de quarta fez Parlamentares recuarem. Mas a discussão continuará. Ao “Wall Street Journal”, um dos fundadores do Wikipedia, Jimmy Wales, declarou: “A política de internet não deve ser estabelecida por Hollywood.” A menção à sede dos grande estúdios, hoje todos, ou quase, ligados a algum conglomerado de comunicação, ajuda a se entender quem está no centro da briga nos EUA. As leis, voltadas ao correto combate à crescente indústria da pirataria — destruidora de emprego formais, sonegadora de recursos tributários, etc. —, permitirão que a Justiça e o Ministério Público americanos reprimam esquemas de pirataria, e o conseqüente desrespeito a direitos autorais e de propriedade intelectual, montados fora dos Estados Unidos. Cabe um parêntese: uma lei de 1998 (Digital Millenium Copyright Act) permite que servidores sejam legalmente derrubados, se estiveram a serviço da pirataria. Mas só se funcionarem nos Estados Unidos. Sopa e Pipa — a primeira lei é mais direta ao ponto — estendem o raio de ação da Justiça Americana para fora do país. Afinal, sites têm sido criados no exterior para vender ao consumidor americano filmes, shows de TV, programas de computador, livros, músicas, muita coisa, até medicamentos, sem a devida remuneração aos proprietários. Tudo pago por cartão de crédito (barrar essas transferências não é tecnicamente difícil). O conflito, resumido entre “Hollywood vs. Vale do Silício”, vai muito além disso. Está em questão uma antiga e falsa ideia de que tudo na internet é de graça. Não pode ser, pois a Rede mundial de computadores não fez desaparecer o custo — que não é baixo — de produção de conteúdos, em qualquer mídia. Os chamados “agregadores de conteúdo”, Google, o maior deles, se lançaram e construíram forte base empresarial capturando textos, fotos, vídeos sem o devido pagamento a donos e autores. Este tempo passou. Isoladamente ou por meio de representações associativas, editores da mídia impressa e tvs negociam com Google e similares a disponibilidade de seu acervo, enquanto, no caso de jornais e revistas, começa-se a cobrar pelo acesso de leitores a cardápios especiais colocados na rede. Sopa e Pipa são apenas a expressão legal, nos Estados Unidos, de um movimento maior, iniciado pela conscientização das empresas tradicionais de comunicação sobre o que de fato começava a ocorrer na sua atividade com o surgimento da internet.                     editorial Opinião O Globo de 20jan2012...................................................................................................................
WASHINGTON:   The Department of Justice today announced that “individuals and two corporations have been charged in the United States with running an international organized criminal enterprise allegedly responsible for massive worldwide online piracy of numerous types of copyrighted works, through Megaupload.com and other related sites, generating more than $175 million in criminal proceeds and causing more than half a billion dollars in harm to copyright owners.”  Below is a comment from RIAA Chairman and CEO Cary Sherman:“We are deeply grateful to the Justice Department professionals who worked tirelessly on this case for two years.  Federal law enforcement has delivered a historic blow against one of the most notorious illegal distribution hubs in the world.  The indictment outlines a sinister scheme to generate massive profits through the distribution of the stolen intellectual property of others. It also demonstrates that the Justice Department meant what it said when Attorney General Holder committed to enforcing intellectual property theft as a top priority.  The indictment unveils the true nature of services such as Megaupload and should send a clear signal to other similar illegal distribution hubs that think they can violate the law with impunity.” “This also demonstrates the malicious intent of the criminal operators behind these illegal sites, which poses a very real and serious problem for the creative community.  Anyone who doubts that should read this indictment closely.   The government has many tools at its disposal, including criminal prosecution.  But if this service were hosted and operated, for example, in a foreign country, our government would be essentially powerless to do anything about it.  That needs to change.” Additional notes:  According to the Department of Justice’s news release and indictment, Megaupload.com is advertised as having more than one billion visits to the site, more than 150 million registered users, 50 million daily visitors, and accounting for four percent of the total traffic on the Internet.  According to Alexa rankings, Megaupload is among the 100 most visited websites in the world.