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domingo, 4 de março de 2012

Guerra cambial e Tsunami monetário

Rubens Gerchman
A presidente Dilma Rousseff criticou nesta quinta-feira a guerra cambial, que prejudica a competitividade da indústria nacional. Ela criticou os países desenvolvidos, que não possuem rigidez em sua política fiscal e despejaram US$ 4,7 trilhões no sistema financeiro. Ela classificou o fenômeno como um "tsunami monetário".
"As condições de competitividade são adversas, não porque a indústria brasileira não seja produtiva ou que o trabalhador brasileiro não seja produtivo, mas porque há uma guerra cambial baseada numa política monetária expansionista, que cria condições desiguais", disse a presidente.
"É por isso que nos preocupamos, sim, com esse tsunami monetário dos países desenvolvidos, que não usam políticas fiscais de ampliação da capacidade de investimento para sair da crise. É importante que a gente perceba isso [o despejo de US$ 4,7 trilhões], que é perverso para o resto dos países, principalmente aqueles em crescimento, como os emergentes", disse. "Esses países mostram que eles compensam essa falta de rigidez fiscal com uma política monetária absolutamente inconsequente no ponto de vista do que ela produz sobre os mercados internacionais."



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Se a Europa despertar

pintura Gonçalo Ivo
A imaginação política dos europeus só passará mais uma vez à ofensiva se for transformada pelo entusiasmo de inventar uma continuação nova e transfiguradora de sua história. A inteligência da Europa enfrenta agora o desafio de reconstruir o mecanismo do seu destino; e desta vez não se trata de um sujeito político da grande Europa Ocidental com sede em Bruxelas, manifestando uma nova pretensão ao Império. 
Não cabe aos europeus de hoje e de amanhã representar pela enésima vez o papel dos romanos. A tarefa que os europeus devem enfrentar consiste antes em submeter a uma metamorfose histórica o próprio princípio da grande potência ou do Império. A obrigatoriedade da grande política aparece hoje no desafio de romper o próprio caráter imperial da imagem da grande potência e transformá-la em um participante no cenário de uma futura política interna mundial. A Europa será o seminário onde os homens aprendem a pensar para além do Império. Surpreender o mundo com o novo, não é isso algo bem europeu? 
De um ponto de vista exigente, ser europeu significa hoje assumir a revisão do princípio do Império como a maior tarefa tanto da teoria quanto da prática. Não se trata mais de dar forma a potências neo-europeias pela apropriação de modelos da velha Europa, mas sim de suprimir o próprio princípio do Império, substituindo-o - em um ato histórico-mundial de criação de forma política- pelo princípio da união de Estados. Como federação multinacional, a Europa deve desenvolver um primeiro modelo bem-sucedido de uma camada intermediária, hoje ausente, entre os Estados nacionais e as organizações do complexo das Nações Unidas. Esse é o tema inevitável de uma futura filosofia política europeia, da qual já é possível dizer que só pode concretizar-se como filosofia processual do pós-imperialismo. 
Peter Sloterdijk - Se a Europa Despertar, reflexões sobre o programa de uma potência mundial ao final de uma era de sua letargia política.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Anti política cultural

Partideiro- ilustração Luis Trimano
Se houvesse mesmo uma cidadania corporativa ganhando espaço nos processos de gestão organizacional ou ainda a inclusão social, digital, sociocultural como ativos nas empresas, qual seria o comportamento que se esperaria delas quando no mundo todo se fala em "guerra cambial"?Qual é a contribuição sócio cultural que as grandes empresas patrocinadoras de eventos culturais no Brasil, que usufruem de incentivos fiscais nas suas operações, tem dado ao Brasil nesse momento de guerra cambial?Um paralelo trágico e inimaginável seria numa situação de guerra um grupo de empresas passar a fornecer armas para o inimigo. Mas afinal que guerra é essa?Nossa política anti cultural atua incentivando e submetendo o país a perdas. Não se fala em sustentabilidade quando a questão é a cultura. É legitima a preocupação com os acessos aos idosos, aos deficientes, o destino do lixo produzido, enfim, mas não podemos ficar por isso. O produto cultural está impregnado de política, a quem interessa incentivar com subsídio fiscal a importação de produtos culturais estrangeiros? Quem é o inimigo nessa guerra cambial?A anti política cultural no Brasil está centrada na valorização do produto cultural importado em detrimento do conteúdo nacional. Se impõe através da midia e da vanguarda do processo tecnológico, se utiliza periodicamente do câmbio a seu favor e mais recentemente do incentivo fiscal dado pelo governo via Lei Rouanet e Leis estaduais de isenção de ICMS. Goza portanto de vantagens comparativas e usufrui o mercado brasileiro de forma hegemônica.A anti política cultural no Brasil não dá resposta para a debacle da música nacional, a mais importante manifestação cultural brasileira. Derrotada a economia da música no país, a anti política cultural brasileira trata de aproveitar o vazio ampliando a participação e presença do produto estrangeiro.Não há política nacional alguma que não seja a de enfrentar a anti política cultural estabelecida entre nós e que nos impõe perdas significativas.

domingo, 6 de novembro de 2011

O fado está assim...






















foto GL - mural no Porto  
Na íntegra, texto de Nicolau Santos, diretor adjunto do Expresso, maior semanário português,  dia 29 de outubro, no caderno Economia.
«Até 2013, a generalidade dos trabalhadores portugueses por conta de outrem vai perder entre 40% a 50% do seu rendimento e todos os seus ativos (casas, poupanças, etc.) vão sofrer uma desvalorização da mesma ordem de grandeza. Pergunto: alguém pensa que isto se fará de forma pacífica? Alguém pensa que o bom povo português aceitará mansamente este roubo? Alguém pensa que assistiremos bovinamente a este assalto? Repito: entre 2011 e 2013, o Governo toma medidas que lhe permitirão confiscar metade do que ganhamos hoje. É deste brutal esbulho que falamos e que está ao nível de decisões idênticas tomadas por governos da América Latina nos anos 80. É isto que está por trás da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2012 e das decisões que o Governo já tomou em 2011. É sobre os escombros resultantes desta violentíssima e muito rápida pauperização da generalidade dos trabalhadores e quadros médios e superiores, públicos e privados, bem como dos reformados e pensionistas, que o ministro das Finanças espera que Portugal triunfe “como economia aberta e competitiva na Europa e no mundo” no final do programa de ajustamento. Faz sentido?
Como é óbvio, só quem ensaia soluções asséticas e perfeitas em laboratório é que pode imaginar que esta história terá um final feliz. O mantra do ministro das Finanças (para conhecer o pensamento de Vítor Gaspar ler o excelente artigo que Pedro Lains publicou no “Jornal de Negócios” de 19 de outubro) é tornar-nos a pequena China da Europa, assente em salários baixíssimos, sem subsídio de férias nem de Natal, relações laborais precarizadas, horários de trabalho flexíveis e menos férias e feriados.
Mas Gaspar quer ir mais longe. E assim a draconiana consolidação orçamental só será eficaz se, como diz, for acompanhada por uma agenda de transformação estrutural da economia portuguesa, nomeadamente um amplo programa de privatizações. O que quer isto dizer? Quer dizer vender ao preço da chuva e ao estrangeiro tudo o que seja empresa pública lucrativa ou participações do Estado em empresas, mesmo que elas constituam monopólios naturais; e não deixar na posse do Estado nem um único centro de decisão. Outros dois componentes fundamentais desta agenda de transformação estrutural são a “flexibilização do mercado de trabalho” (que nos permitirá trabalhar com regras cada vez mais próximas dos chineses) e a reforma do sistema judicial (de que, até agora, ainda não tivemos nenhuma notícia).
O tatcherismo serôdio do ministro das Finanças afirma-se pelo preconceito contra tudo o que é público e pela fezada de que colocando-nos todos a pão e água conseguiremos atingir os grandes equilíbrios macroeconómicos em 2014, partindo daí para uma fase de grande prosperidade. Mas será que o senhor não percebe que os melhores quadros do sector privado vão emigrar logo que puderem? Será que não percebe que os bons (e cada vez mais raros) quadros da Função Pública se passarão para o privado à primeira oportunidade? Não percebe que ninguém investirá um cêntimo a criar novas unidades produtivas em Portugal nos próximos anos (comprar empresas já existentes não acrescenta nada em matéria de emprego e de criação de riqueza, como é óbvio)? Não percebe que os jovens licenciados, muitíssimo bem formados, só pensam em ir trabalhar para o estrangeiro? Não percebe que há muito se passou o limite dos sacrifícios aceitáveis e que, a partir de agora, haverá uma resistência passiva destinada a iludir o fisco? Não percebe que a economia paralela se vai tornar mais pujante do que nunca e que essa é a única via para os portugueses sobreviverem a este esbulho de que estão a ser alvo?
Dir-se-á: mas havia alternativa? Havia desde que se quisesse e lutasse por ela. O programa de ajustamento da Irlanda vai até 2015. Não se percebe porque o nosso não pode ser também estendido no tempo. O défice para 2011 já foi corrigido em alta pela troika.
Porque é que não se luta para que também o de 2012 seja aumentado? Porque é que se quer impor esta insuportável dor social aos portugueses? E na questão do financiamento à economia, porque não se bate o Governo porque haja uma nova tranche (cerca de €20 mil a €30 mil milhões) para que o Governo pague às empresas públicas de transportes e estas aos bancos, que terão assim liquidez para financiar as pequenas e médias empresas?
Mas não. O que Gaspar quer é tornar a economia portuguesa competitiva através de uma violentíssima desvalorização por via salarial, pela maior recessão desde há 37 anos e por quebras do investimento e do consumo que não se verificam desde os anos 80. Se isto der resultado, deem-lhe o Nobel.»