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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Se a Europa despertar

pintura Gonçalo Ivo
A imaginação política dos europeus só passará mais uma vez à ofensiva se for transformada pelo entusiasmo de inventar uma continuação nova e transfiguradora de sua história. A inteligência da Europa enfrenta agora o desafio de reconstruir o mecanismo do seu destino; e desta vez não se trata de um sujeito político da grande Europa Ocidental com sede em Bruxelas, manifestando uma nova pretensão ao Império. 
Não cabe aos europeus de hoje e de amanhã representar pela enésima vez o papel dos romanos. A tarefa que os europeus devem enfrentar consiste antes em submeter a uma metamorfose histórica o próprio princípio da grande potência ou do Império. A obrigatoriedade da grande política aparece hoje no desafio de romper o próprio caráter imperial da imagem da grande potência e transformá-la em um participante no cenário de uma futura política interna mundial. A Europa será o seminário onde os homens aprendem a pensar para além do Império. Surpreender o mundo com o novo, não é isso algo bem europeu? 
De um ponto de vista exigente, ser europeu significa hoje assumir a revisão do princípio do Império como a maior tarefa tanto da teoria quanto da prática. Não se trata mais de dar forma a potências neo-europeias pela apropriação de modelos da velha Europa, mas sim de suprimir o próprio princípio do Império, substituindo-o - em um ato histórico-mundial de criação de forma política- pelo princípio da união de Estados. Como federação multinacional, a Europa deve desenvolver um primeiro modelo bem-sucedido de uma camada intermediária, hoje ausente, entre os Estados nacionais e as organizações do complexo das Nações Unidas. Esse é o tema inevitável de uma futura filosofia política europeia, da qual já é possível dizer que só pode concretizar-se como filosofia processual do pós-imperialismo. 
Peter Sloterdijk - Se a Europa Despertar, reflexões sobre o programa de uma potência mundial ao final de uma era de sua letargia política.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Do déficite democrático ao pós democracia -1


pintura Damien Hirsch / foto GL
Jornal Expresso, Publicado a 22 Novembro 2011 
A Europa entrou na fase "pós-democracia"? Falar de deficit democrático pressupõe a ideia que há um desvio ou uma insuficiência a exigirem correcção; falar de "pós democracia" significa a entrada de um novo modelo que ainda não sabemos designar senão como inflexão, historicamente designada, da democracia.Uma constituição europeia que possa consagrar uma "transdemocracia" sem sacrificar a autonomia democrática nacional dos povos europeus e que denuncia já uma "pós democracia".Há hoje uma brigada de "funcionários esclarecidos" em Bruxelas que elaboram regulamentos e directivas com o intuito de controlar tudo e colocar tudo sob tutela, impondo um sem número de regras que determinam a vida quotidiana dos cidadãos europeus. Não se trata de um regime totalitário e violento, pois a sua missão não é "oprimir mas harmonizar" ( não é uma prisão mas uma casa de correcção). Esta guarda sabe tudo o que aos cidadãos interessa, nomeadamente o que é melhor para eles, e outra missão é evitar pedir-lhes opinião e submeter as decisões ao voto e à discussão públicas.A simples ideia de um "referendo" desencadeia uma imediata cadeia de pânico na eurocracia.Lembre-se as directivas sobre a curvatura dos pepinos e a coloração dos alhos franceses e o regulamento sobre a lâmpadas ecológicas de uso doméstico que ocupa 14 páginas.Entretanto o modelo técnico de governabilidade já é uma realidade em Itália e na Grécia, o que quer dizer que a Europa já está a virar as costas a essa velha conhecida que é a democracia já não assente no cidadão mas nas empresas.PS: continua - com ensaísta Hans Magnus Enzensberger e filósofo Jurgen Habermas (Expresso- António Guerreiro)