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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

De olho nas Olimpíadas do Rio


R.Gerchman

Vieram com Simonal, aquele abraço, francamente...um engano total nossa manifestação em Wembley, irrelevante não fosse a presença de Pelé...nossa música vencedora foi feita por Tom Jobim e está aí pelo mundo viajando...quando o olhar do mundo focar no Rio a trilha sonora deve partir de Tom Jobim, nossa vitória. Não faltam grandes artistas para realizar isso: Edu Lobo, Jacques Morelenbaum, Francis Hime, Jaime Além e muitos outros...e a música brasileira é vitoriosa no mundo e sua maior expressão é jobiniana...precisamos revelar isso sempre.
Gostei do visual, teve um tom mágico, gostei dos índios também, somos muito índios basta ver a nossa maravilhosa lutadora do Piauí, linda, somos negros índios e brancos, é bom mostrar isso para o mundo. Gostei da menção construtiva, foi bonito o visual...mas a música...os brits mostraram o que querem com a música, começam sempre pelos Beatles, é claro, assim sobre todas as coisas, e depois descem com tudo, mostram de tudo mesmo. Mas o alicerce é claro. Podemos num rompante de humildade cívica adotar o modelo, afinal parece que dá certo, ou não… Um tiquinho de Villa para limpar a barra com os xiitas e, geléia geral. É outro caminho.
Se de fato Tom e Vinicius, cariocas nativos, fizeram a síntese do Rio que com o baiano João virou síntese nacional e isso se tornou a nossa obra de arte mais importante do século, então temos um alicerce. Isso está constituído. Podemos acrescentar Ari Barroso e Caymmi, o Tropicalismo, e as outras coisas, mas o alicerce lá. Se cultura é confronto, é guerra, então temos que nos armar de nossa potência. É muito sério isso, é nossa primeira Olimpíada num mundo que olha para isso, temos de cuidar do legado, ensiná-lo, sem isso não temos saída, nem avanço. 
Não gostei do Sorriso chapliniano, logo o Rio que é uma sujeira e onde seguranças dão e levam garrafadas, e senti a ausência do clichê das mulheres bonitas e semi nuas. Aqui é assim, com pouca roupa, é quente. 
Hermano Vianna no Globo pensa diferente. Quando Ferreira Gullar fala da necessidade da arte porque a realidade é pouca, Hermano pega isso e invoca Game of Thrones, confunde tudo. Seria como chamar um gibi de ready-made... E fenômeno! Acusa os brasileiros de " inseguros por criar muitas barreiras para nos defender do que vem de fora"... está falando de quem? Dos brasileiros mesmo? Se refere ao Criativo Comum? Afinal, onde estão essas barreiras se só importamos tudo??? Ainda é pouco? 
Mas fala dessas coisas para chegar na cerimônia olímpica preocupado com o "nacionalismo" da festa britânica. Que novidade? Os Brits estão  sempre em festas nacionalistas, o tempo todo, acabaram de celebrar a regata da Rainha na qual se prepararam durante um ano. A seguir as Olimpíadas e semana que vem tem outra...é assim. Cansaço? Decadência? Há quantos séculos? Estamos em plena perplexidade diante do check mate musical: só a música anglo americana domina, circula, produz riquezas. E é tão interessante ouvir falar do fim da indústria da música depois do show dos ingleses na Olimpíada que foi música o tempo todo em todos os lados, mostraram mesmo que a decadência é papo dos “sociólogos”…
O rompante de humildade cívica seguindo o modelo brit de celebração é pra esquecer com nosso Hermano. Ele quer mesmo a geléia geral e já começou a sugeri-la, vide o artigo no Globo. Ele quer "...esquecer o que é realmente brasileiro" ( o Francisco Bosco, outro articulista no mesmo espaço, quer que esqueçamos nossa hegemonia no futebol, inventou outro esporte), Hermano aposta na ... mistura ( será um novíssimo gênero?). Nada de brasileirismos, isso é para Brits e Chinos...ou seja, estamos condenados a comer macarrão com peixe, xis tudo, como se isso não fosse apenas indigência e não um paladar preferido. Hermano quer a festa na rua, nem se liga para a segurança, o trânsito, os turistas, que se danem, somos diferentes e o cheiro de xixi faz parte...ora essa, é insuportável esses populismo avesso de intelectual em apartamento com ar condicionado e varandão se regozijando com o visual da massa, que mijada e fedida usufrui da única organização que lhe é possível, nenhuma, contando apenas com a a sua alegria atávica. Isso é condenação.
Mas eu disse do desgosto em ver o Sorriso na festa olímpica, mesmo gostando tanto dele, porque minha preferência seria mostrar que pobre a gente põe na escola, mais que o orgulho em mostrá-los amenos, boa gente. A vitória do pobre seria sua emancipação, não a cooptação. Projetar uma imagem chapliniana dócil e resignada da sua condição servil, nesse caso, no nosso caso, nesse momento histórico, não me parece mais adequado culturalmente.
O lixeiro e o segurança, não podem ser nossa expressão do urbano nem serve para expressar nossa contemporaneidade. E, francamente, não somos assim, talvez quiséssemos ser algum dia, mas não somos. O lixeiro entre nós o que é? Muito diferente por exemplo dos bombeiros americanos, e o que é a imundice das nossas cidades? Um desastre, uma sujeira impressionante. Então é mentira o lixeiro boa gente. E quanto a nossa capacidade de projetar a alegria na avenida com nossa gente pobre fantasiada, esse traço cultural é mais complexo. Gostei do Freixo diferenciando cultura e turismo, e olhando as Escolas de Samba com outros olhos.
Mas é verdade que o Sorriso é essa capacidade inesperada de produzir arte, mas melhor que não fosse assim e tivéssemos mais escolas e nossos bailarinos se multiplicassem em companhias de balé vitoriosas, o novo mundo produzindo um balé contemporâneo de primeira. Sorriso seria o que?
O futebol nos deu essa explosão de escolinhas de futebol por toda parte, em todo lado tem uma escolinha de futebol e nossa abundância em produzir craques é famosa. Isso é bacana, os meninos jogando bola nas escolinhas, como antes faziam nos terrenos baldios nas cidades. Seria bacana escolinhas Antonio Adolfo por todo Brasil, ou similares, mas como fazemos com a música?
E eu vi Chico Science...mas é tudo isso mesmo? Vamos acreditar então que a nação zumbi é isso tudo? Zumbi é tudo, mas isso é outra coisa.

eu fico então com João, Tom e Vinicius sobretudo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Ser Garrincha

Rubens Gerchman
Meu Personagem da Semana (Nélson Rodrigues) O Globo, março de 1962.  
1-    Amigos, o meu personagem é Garrincha. E podia ser Pelé, Garrincha ou Pelé, tanto faz. Um ou outro, mesmo sem fazer nada, é fato, é notícia, é retrato, é manchete. Para o “Paris Match”, mais vale um sorriso de Pelé do que o decote mais nítido, mais violento de Elizabeth Taylor. Mas eu escolhi Garrincha e explico: Dos seus pés      (ou de Pelé) pode nascer a flor do Bi.
2-    Ora, dizem que, nesta terra, qualquer um é neurótico, inclusive os passarinhos matinais. A gente anda esbarrando, tropeçando em melancolias, em depressões hediondas. Pois bem, Garrincha não. Eu próprio já escrevi, a propósito do “Seu Mané”: “A única sanidade mental do Brasil”. E, com efeito, a saúde interior de Garrincha é de humilhar esses bebês de anúncio. Sim, de anúncio de talco.
3-    No fundo, cada brasileiro é uma macaca de auditório de Garrincha. Notem: quando ele apanha a bola, o Maracanã, todo, arreganha um riso unânime e alvar. Não se sabe o que Garrincha vai fazer, qual a jogada que ele vai tirar de seu repertório tremendo. É um riso prévio, um riso que se antecipa à piada. Mas o que eu queria dizer é que pouco conhecemos de Garrincha ou, por outras palavras, que somos analfabetos em Garrincha.
4-    Alguém dirá que eu exagero, talvez, e daí? Mas nem tanto, amigos, nem tanto. Há em Garrincha uma série de coisas óbvias e que ninguém percebe. Por isso, vivo eu a dizer que só o gênio, só o Miguel Ângelo, só o Shakespeare enxerga o óbvio. Por exemplo: Garrincha não usa chuteiras como um simples craque mortal. Não. Ele joga de duras e franciscanas sandálias.
5-    Outra evidência ululante, e que ninguém descobriu: o nítido e taxativo parentesco de Garrincha com São Francisco de Assis. Eu disse “sandálias” para definir a relação entre os dois santos. Sei, perfeitamente, que qualquer um, inclusive um “gangster” de filme, tem um momento em que é um São Francisco de Assis, da cabeça aos sapatos.
6-    Sim, de vez em quando, uma vez na vida e outra na morte, qualquer de nós é atravessado de luz como um vitral de igreja. Mas é um instante que passa para nunca mais. Em Garrincha, não. São Francisco de Assis não passa, está sentado na alma do craque. Eu diria, se me relevarem a expressão meio torpe, que o santo é para Garrincha um desses chatos que não largam o sujeito.
7-    A qualquer hora do dia e da noite, em Pau Grande ou no Maracanã, Garrincha é franciscano. É o único brasileiro, vivo ou morto, que não conhece o ódio e, digo mais, que não conhece uma vaga de irritação. Nós somos um povo de ira fácil. Aqui, todo mundo gostaria de quebrar a cara de todo mundo (e, finalmente, ninguém quebra a cara de ninguém). Vocês se lembram daquele chefe de família que entrava em casa avisando: “Não falem comigo que, hoje, eu estou brigando automaticamente”.
8-    Garrincha, não. Garrincha, nunca. Faz um futebol sem “foul”. É caçado em campo, a cacetadas, como uma ratazana o era nos tempos de Osvaldo Cruz. É ceifado, dizimado. E só uma coisa admira: é que, no fim de cada jogo, ele não saia de maca ou não saia de rabecão. Pois bem: e jamais ocorreu a Garrincha enfiar o pé na cara de ninguém. É quebrado e, depois, cata no chão os próprios cacos.
9-    Mas onde Garrincha é mais franciscano, onde? Com as baianas. Sim, com as baianas turísticas, folclóricas, que vendem cuzcuz, pés de moleque, o diabo. E Garrincha prefere as cocadas brancas, nupciais, insiste: virginais. Mas não pensem que ele as come com uma simplicidade animal. Nada disso. Há uma ternura, há um amor. E ele poderia dizer como um santo: “Nossa irmã, a cocada”.
10- Hoje, está em Campos do Jordão e eu repito: Campos do Jordão é um cimo lívido, varado de ventos tristíssimos, de ventos inconsoláveis. Faço então a pergunta: por que meter Garrincha e o “scratch” na geladeira, por quê? Alguém dirá que é uma preparação para o frio dos Andes. Mas pelo contrário! O brasileiro é canicular. Há, nele, uma feroz e eterna nostalgia de canícula. Devíamos entupir, devíamos abarrotar Garrincha e o “scratch” de sol, de muito sol. Para derrotar o abominável frio chileno.
11- Algum Drummond podia ir, de porta em porta, pedindo: “Sejamos docemente Garrincha!” Ser Garrincha é uma solução para milhares, para milhões.
 

terça-feira, 20 de março de 2012

Ministério Sangue Bom


A luta constante por cargos no governo Dilma tem uma expressão destacada no Ministério da Cultura desde a primeira hora. Depois da longa e midiática gestão de Gilberto Gil, a disputa pelo cargo tem momentos de estridente intensidade, mas o que de fato está por de trás de tudo isso? Não se entende que projeto tão magnífico é esse que não é atendido pela nova Ministra, ou por outra, o que de tão importante foi descontinuado ou relegado. Falar em Criativo Comum não é sério e desqualifica, não há parte alguma no globo onde isso tenha a mínima relevância apesar do Deus nos acuda quando aqui foi retirado de um rodapé. O que está de fato por trás de tudo isso?
Rubens Gerchman
A ideia de continuidade no Ministério da Cultura deveria por si só ser abandonada, afinal qual a grande vitória obtida nas gestões passadas senão a organização burocrática e institucional, que se por um lado é importante e necessária, podemos considerar que seria realizada por qualquer Ministro.
Não se deu trégua a Dilma mesmo antes de mais nada. Como de fato a Cultura não se envolveu para sua eleição, exceção salvadora de Chico Buarque e Niemeyer, é compreensível a má consciência. Mas o Brasil elegeu a Dilma e quer ver nela a coragem para enfrentar quem quer fazer dela apenas uma desqualificada sucessora. Vamos torcer por ela e pelo governo dela, e com Ana Buarque de Hollanda, por que não?
A seguinte nota foi publicada no dia 24 de março, na coluna de Ivan Santos, no Correio de Uberlândia:
Ministra na marca do pênalti          
Ana de Hollanda, ministra da Cultura do Brasil, está na marca do pênalti para ser chutada. Parece até um corpo estranho no centro do poder político em Brasília. Para certa mídia interessada, é ela incompetente. Por que carga tão pesada contra a ministra? Primeiro, ela não é filiada ao PT nem a nenhum partido da Base. Será por isto que há tantas forças ocultas interessadas na demissão dela? Quem tiver conhecimento para ler hieróglifos e souber interpretar parábolas, pode entender por que tantas cabeças coroadas estão preocupadas com a ministra da Cultura. Recentemente, um terço da influente Comissão de Cultura do Senado, composta por 27 senadores, aprovou um convite à ministra para ouvi-la sobre temas de “máximo interesse social”. Antes, é bom saber que há no Congresso mais de 200 parlamentares donos de emissoras de rádio ou de televisão. Donos diretamente, donos por meio de parentes ou de laranjas. As emissoras dos políticos devem ao ECAD – entidade que arrecada direitos autorais – mais de R$ 1 bilhão. Devem, não pagam e não dão explicação. O ECAD nunca teve coragem de cobrar as dívidas dos “senhores da República”. Agora, com apoio da ministra da Cultura, o ECAD passou a cobrar os direitos autorais e ameaça levar as emissoras dos poderosos à Justiça. Então a ministra é incompetente! Deu pra entender por que alguns intelectuais a serviço de donos de emissoras pedem a cabeça de Ana de Hollanda? 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Chegou o momento do contra-ataque da indústria da cultura


ilustração Rubens Gerchman

3 outubro 2011/ NELSON DE SÁ / ARTICULISTA DA FOLHA

Robert Levine foi editor da revista "Billboard", que cobre música, e antes trabalhou na "Wired", que cobre tecnologia. Acreditava que a indústria fonográfica e os produtores de conteúdo em geral deveriam abrir seus produtos, gratuitamente, na internet. Até notar, aos poucos, que as empresas de tecnologia cresciam lucrando com os mesmos produtos, mas resistiam a pagar por eles.
Passou a "seguir o dinheiro" e levantou que as instituições que defendem abrir tudo na internet são financiadas pelas mesmas empresas de tecnologia. Que o Creative Commons recebeu US$ 1,5 milhões do Google em 2008 e mais US$ 500 mil em 2009.
O resultado é o livro "Free Ride", carona grátis, que faz ao longo de 320 páginas um relato detalhado de "como a internet está destruindo a indústria da cultura" e sugere "como contra-atacar". O livro foi lançado no Reino Unido há dois meses, com elogios do "Financial Times" e restrições do "Independent", e sai nos EUA no próximo dia 25.
Abaixo, trechos da entrevista realizada por telefone:
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Folha - Você escreve que o conflito em torno da internet não é entre ativistas e empresas de mídia, mas econômico, entre empresas de tecnologia e empresas de mídia, de conteúdo.Robert Levine - Era o ponto principal que eu queria abordar. As pessoas veem essas questões em termos de bem e mal. Quando você tem empresas, elas tendem a agir segundo seus interesses econômicos, a fazer o que dá dinheiro. Na internet, você está falando de grandes provedores, Verizon, At&T, e de Google, Facebook. Mas os ativistas ainda falam, por exemplo, em blogs: "Somos nós contra as grandes empresas de mídia". Mas a indústria fonográfica já não é tão grande, se comparada ao Google, e é pequenina, se comparada às teles. As pessoas dizem: "A indústria fonográfica manda em Washington". E ela não é nada comparada ao Google, às empresas de tecnologia.
Folha - Qual foi seu ponto de partida?Levine - Eu trabalhei na "Wired", tempos atrás, e acreditava que as gravadoras eram antiquadas, atrapalhavam o progresso. Com o tempo, pensei: "Espera aí, muitas dessas empresas de internet não querem pagar por conteúdo". O Napster ainda tinha um plano para pagar por conteúdo. Não era bom, mas era um plano. Glogster, não. Limewire, não. A ideia sempre foi fazer um livro crítico, mas nem tanto quando acabou sendo. Descobri que havia todo esse dinheiro que os ativistas recebiam. Temos uma frase no jornalismo americano, "siga o dinheiro", não tenho certeza da origem, mas apareceu em Watergate.
Folha - A origem foi o roteirista do filme [William Goldman].Levine - Exato, "Todos os Homens do Presidente". Ok, você conhece a sua cultura pop. (risos) Para mim, é o que você faz, como jornalista: você segue o dinheiro. E eu examinei o Creative Commons e [seu fundador] Lawrence Lessig, o Center for Internet and Society, da Universidade Stanford, a New America Foundation. Muita gente me disse, "eles são legais, boas pessoas". Provavelmente são, não penso que ninguém seja o mal. O mal é matar alguém, não infringir copyright. Mas eles são enviesados.
Folha - Parte do financiamento dessas instituições vem das empresas de tecnologia.Levine - Muito do financiamento vem. E o que é interessante é que as pessoas não sabem. Se você ler os jornais, não há qualquer menção. Como é que esses ativistas recebem todo esse dinheiro do Google e ninguém diz nada? Trabalhei seis meses no levantamento da proposta para o livro. Mais e mais eu me surpreendia. Comecei a pensar: "É um conflito de negócios: Quem vai controlar a distribuição de música é a Warner ou o Google?". Não penso que as gravadoras sejam o bem ou que o Google seja o mal, porque sou um jornalista de negócios. Mas creio que alguns desses ativistas... Dias atrás, almocei com um, aqui em Berlim, e ele não sabia de onde vinha o dinheiro do Creative Commons. Não é estranho?
Folha - Aqui no Brasil, talvez Gilberto Gil também não saiba.Levine - É curioso que você cite o Brasil, porque havia dois países que eu queria visitar, para o livro, mas não pude, porque não tinha o dinheiro: Brasil e Nigéria. Sou um "nerd" de música, comecei como jornalista musical. Brasil e Nigéria tiveram grandes cenas musicais nos anos 60 e 70. Tropicália, Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes. Na Nigéria, Fela Kuti, Tony Allen, o Afrobeat. A maioria foi bancada por grandes gravadoras. Gil estava na Philips.
Folha - Uma grande gravadora na época.Levine - Que depois virou parte da Polygram, que agora é parte da Universal. Mas hoje as pessoas falam: "No Brasil existe essa grande cena tecnobrega, que não precisa de gravadoras". Sim, mas ela não gera qualquer recurso de exportação para o Brasil. Todos aqueles discos de Gil geraram recursos para a economia. Por isso eu queria ir, porque vocês têm essa imagem de que o mundo em desenvolvimento deve ser contrário ao copyright. E eu não acredito que ela seja correta.
Folha - Gil e outros artistas, como Radiohead, tentam incorporar a distribuição grátis via internet. Como você essas tentativas de construir pontes?Levine - O que o Radiohead fez foi realmente esperto. Eles conseguiram mais dinheiro ainda com aquele álbum, o que deram de graça. Deixaram você pagar o que queria, conseguiram muito dinheiro e promoveram sua turnê. Foi realmente inteligente. Por outro lado, o Radiohead pôde fazer porque já era famoso. E já era famoso porque, por um lado, na minha opinião, é uma das bandas mais talentosas que há, mas também porque teve muita promoção da EMI.
Folha - Para começar.Levine - No começo. Você tem muitos artistas talentosos que ninguém conhece. A EMI gastou muito dinheiro falando ao mundo sobre o Radiohead. Imagino que a Philips tenha gasto muito dinheiro para falar ao mundo sobre Gil. Tenho vários daqueles discos, mas não conheço tanto a história. Mas ele estava na TV brasileira. Então, quando se torna conhecido, você não precisa de uma gravadora, mas quem será o Gilberto Gil de amanhã?
Folha - O livro aborda também imprensa e TV. Diz que tiveram duas formas de tratar a internet, no início; a primeira seguindo a opinião geral e abrindo quase tudo na internet, caso do "New York Times", e a segunda mantendo o conteúdo fechado, caso do "Financial Times", o que fez toda a diferença. E daqui para a frente?Levine - A indústria de jornais nos EUA e no Reino Unido sempre foi ligada à publicidade. Dez anos atrás, a divisão tradicional era de 85% de recursos oriundos da publicidade e 15% da venda de exemplares. Se você examinar os EUA, a proporção do PIB que vai para publicidade não mudou muito desde 1995. O PIB sobe e desce, mas o percentual se mantém. Você tinha, digamos, essa torta que sustentava jornais, TV, revistas. Agora você corta essa torta pela metade. Google e Facebook ficam com uma metade. Todos os jornais e todas as TVs estão disputando a outra. Eles têm de vender o conteúdo, não têm alternativa. Não sei se vender o conteúdo vai funcionar, mas sei que distribuí-lo de graça na internet não vai. Não para um jornal ambicioso, que gasta muito dinheiro com seu conteúdo. "New York Times", "Wall Street Journal", "Zeit", "Le Monde", alguns poucos em cada país. Não são todos que querem cobrir guerras, esse tipo de jornalismo, mas, se quer ser um grande jornal, tem que cobrar.
Folha - Vale também para os emergentes?Levine - Pode ser diferente no Brasil ou na Índia, porque suas economias estão se expandindo. Não sei muito do Brasil, mas quando uma economia cresce mais rápido, você tem mais pessoas na classe média e mais gastos, internamente. E, quando você tem mais gastos internamente, aí a publicidade realmente decola. Mas é muito difícil fazer previsões sobre o Brasil, porque é um país tão grande, com tantas diferenças, São Paulo e Manaus são quase mundos diferentes. Mas, num país desenvolvido, você tem que vender as notícias. E acredito que as pessoas vão comprar. Eu pago US$ 23 por mês pelo "New York Times". Se mudarem amanhã para US$ 33, continuaria pagando. As pessoas são muito sensíveis à conveniência ao pagar, elas querem que seja fácil, mas não creio que se importem tanto com o custo. A maioria dos americanos paga US$ 60 por mês pela TV a cabo. E a maior parte da programação é muito ruim.
Folha - Centenas de canais, nada para ver.Levine - US$ 60 pelo cabo ou US$ 30 pelo "NYT"? Para mim, US$ 30 pelo "NYT". Nos EUA, o iTunes aumentou o preço das músicas de US$ 1 para US$ 1,29. E vendeu 13% menos músicas, mas obteve 20% mais de dinheiro. Se você está no negócio para ter, é realmente inteligente.
Folha - Por que você escreveu sobre direitos de músicas, jornais, filmes, e não sobre patentes de forma geral?Levine - Uma das razões é que patente é uma questão de vida ou morte. Se você precisa muito de um remédio e não pode pagar, você pode furtá-lo. E eu não posso dizer que seja uma coisa ruim você estar furtando remédio. Mas se você furtar um álbum do Led Zeppelin...
Folha - Não é a salvação da vida de ninguém, necessariamente.Levine - Espera aí, para mim é. (risos) Mas eu cresci em Connecticut, não havia nada para fazer. Mas são coisas diferentes. Você pode dizer que o governo da Índia ou do Brasil ou da Nigéria tem uma motivação política legítima. Você tem o direito de expropriar propriedade intelectual americana se vai salvar vidas? A resposta é talvez. Mas você têm o direito de expropriar "Gossip Girl"? "Desperate Housewives"? Aí é algo difícil de defender. Se você examinar o que acontece na Organização Mundial de Propriedade Intelectual, na ONU, muitas pessoas do Creative Commons e do Google confundem as duas questões, copyright e patentes. Para mim, são muito diferentes, porque o que está em jogo é muito diferente. Não penso que furtar uma música do Led Zeppelin seja uma coisa horrível, embora me pareça, de fato, desnecessário.
*
Folha - No fim do livro, você fala dos diferentes caminhos possíveis daqui para a frente. Um deles seria o esforço crescente, na Europa continental, para combater a pirataria na cultura. É uma saída?Levine - Sim. As divergências legais que estão sendo debatidas hoje são muito pequenas. Ninguém diz que baixar algo pelo qual você não pagou seja correto. Ninguém diz que postar um filme na internet é correto. Tudo o que estão discutindo é quem deve responder legalmente pelo ato. O YouTube diz: "Vocês não podem nos processar, têm de processar os indivíduos". Mesmo se for difícil garantir o respeito às leis, é importante delimitar, com leis que digam "ei, isso é errado". Só deixar o sinal já é importante.
Folha - O Google tem um lema, hoje pouco lembrado, "don't be evil", não seja mau. Mas agora, com o Google tão grande, com o Facebook tão grande, a imagem do bem está mudando?Levine - Ah, sim.
Folha - No livro, você cita que [o editor] Chris Anderson proclamou, na "Wired", que "a web está morta", porque está se fechando, com dispositivos como Xbox Live e App Store. Os malvados se tornaram as grandes empresas de tecnologia? Elas são o novo alvo?Levine - Sim, mas me permita dar algum contexto. Sempre houve dois lados na indústria do entretenimento: o produto e a plataforma. Hoje, o Google controla a plataforma. Também os provedores de serviços de internet, as teles, são uma plataforma. Apple e Amazon têm plataformas fechadas. E parte do problema é: quem tem o poder, o produto ou a plataforma? Na indústria tradicional de mídia, o produto tem muito poder. Se estou tentando fazer você comprar TV paga, você vai querer o canal com os melhores programas. Se tenho um cinema, preciso de bons filmes. Com a internet, você não precisa pagar nada, está tudo lá. Então a questão é como fazer a plataforma pagar pelo produto. Quando Chris diz que "a web está morta", uma das coisas de que está falando, penso eu, é que muitos dos criadores de conteúdo não gostam da internet, porque é uma forma muito ruim de vender coisas. A internet foi criada por cientistas que queriam compartilhar informação acadêmica. Para isso, ela é extraordinária. Mas não estamos mais usando a internet para compartilhar pesquisa acadêmica. Estamos usando para serviços bancários, para tudo.
Folha - Para mídia.Levine - Mas a internet só é boa para compartilhar informação. Se você quer vender informação, ela não é, na verdade, um sistema bem estruturado. Daí a pergunta: Que passos podemos tomar para mudar o sistema? A Apple tem um sistema muito bom para vender coisas. O Xbox tem um sistema muito bom para vender coisas. Você pode achar os videogames idiotas, mas tecnicamente é um sistema muito bom. Mas o Google diz: "Espera aí, você não pode fazer mudanças, é imoral". Eu não penso que seja imoral. É ruim para os negócios do Google, porque, quanto mais informação vai para a internet, mais o Google lucra. É ótimo para eles. Mas, se você quer lucrar também, alguém tem que comprar sua informação. Temos que estruturar um sistema ou regular um sistema para mais gente.
Folha - Regular como?Levine - Me desculpe se soa pretensioso, mas eu acho que a pergunta é: "Quem está no comando?". Os políticos regulam a plataforma ou as plataformas regulam os políticos? Eu não votei no Google. Eu vou e volto quanto ao governo americano, mas no ano que vem posso votar novamente. Provavelmente votarei em Obama outra vez, mas eu posso votar e você pode votar em não sei quantos anos. Você não pode votar no Google ou na Apple.
Folha - Eles estão lá e ponto.Levine - Eles simplesmente estão lá. Uma das coisas de que eu gosto sobre a Europa é que, quando os EUA não regularam a Microsoft, a Europa o fez. Quando os EUA não regularam a Intel, a Europa o fez. Não acredito que os EUA vão regular o Gooogle. Porque eles são muito próximos de Obama.
Folha - Google e outras empresas de tecnologia têm feito encontros e jantares com Washington ultimamente.
Levine - O Google doa muito dinheiro para Obama. Eric Schmidt [executivo do Google] foi um sério candidato a secretário do Comércio. Como você pode ter um secretário do Comércio que pensa que tudo deve ser grátis? É um pouco estranho.
Folha - Além de Chris Anderson, Tim Berners-Lee, o inventor da web, escreveu que a internet está em perigo por causa de "ilhas" como o iTunes.Levine - Mas aí eu tenho de perguntar se está em perigo ou se está evoluindo. Não quero voltar a comprar fitas cassete e discos de vinil. As coisas avançam e mudam. Podemos comprar música no iTunes, no Spotify, mas compramos on-line. Isso não vai voltar atrás. A indústria fonográfica tem de se adaptar, as editoras de livros têm de se adaptar. E adivinhe? Também Tim Berners-Lee tem de se adaptar. Por que todas as pessoas que defendem o progresso tecnológico querem que a internet se mantenha exatamente como era em 1995? Tim Berners-Lee e Lawrence Lessig e todos esses caras querem que a internet continue exatamente igual. A internet vai crescer, amadurecer.
Folha - Mas Berners-Lee criou a web, ele não deveria ser ouvido?Levine - Ele é um cientista, muito inteligente. Mas eu não quero um cientista decidindo como a sociedade deve funcionar. Para isso, ele não é qualificado. E deveria calar a boca. Aliás, eu não sou qualificado também. Isso precisa ser uma conversa política. Os chamados valores "geek" [dos aficcionados de tecnologia] na verdade não têm muito apoio entre as pessoas. Poucos parecem concordar com Tim Berners-Lee. Então, quem se importa com o que ele diz? É um gênio, mas só porque é um gênio da ciência da computação... Ter professores muito inteligentes decidindo como a sociedade funciona nos deu algumas das piores economia do século 20. Se você vai e pede, "estruture uma sociedade", você termina com a União Soviética.
*