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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A intenção frouxa

damien 

Na intenção de justificar a derrota brasileira do futebol nas Olimpíadas o intelectual Francisco Bosco em seu artigo no Globo dispara teses e juízos para nos fazer acreditar que a nossa hegemonia se acabou. Para tanto ele funda um novo futebol onde o talento individual é incapaz de decidir uma partida. Vê-se logo, quem conhece o ambiente das quatro linhas, que nosso sábio não jogou bola. O que o futebol revela é o craque, o futebol existe pra isso e exatamente por isso. Quando Parreira disse a filosófica sentença: “o gol é um detalhe”, errou acertando. O futebol é para o craque. Em campo, todo jogador sabe quem é o craque, que se revela num instante. “Ele”, era como o genial locutor da Tv Excelsior se referia quando a bola estava com Pelé. Hoje quase ouvimos a mesma coisa quando ela está com Messi. Foi assim com Zico, Maradona, Garrincha a alegria do povo, e tantos…o futebol é do craque e sua revelação é o mistério do jogo, e o gol, o detalhe.
Ou seja, Bosco está enganado na partida. É natural que ele demonstre admiração pelo atual técnico da seleção, o Mano. Diz que ele rompe com provincianismo e seus parâmetros avançados passam longe do nosso futebol. Ora, Mano seria um bom analista de TV, comentarista de partidas, tem boa retórica e agrada os ouvidos mais sofisticados no uso do vernáculo. É aí onde moram sua perícia e novidade. Mas o ex-zagueiro Edinho, agora comentarista, descreveu muito bem a diferença no intervalo de uma recente partida difícil para o selecionado brasileiro: “O Mano fala bem dos problemas mas ele se esquece que é o técnico, que ele tem é que mexer no time e não analisar jogos”. Ou seja, Edinho é um craque, percebeu porque sabe da diferença. Não basta a dialética ali no campo, tem uma especificidade que é própria.
O intelectual quer nos ensinar a perder, quer que admitamos uma superioridade no adversário, quer invocar mais uma vez nossas síndromes de inferioridade, quer solapar nossa arrogância, nossa pretensão hegemônica, ali…no campo. Quer que nos habituemos com a possibilidade de…perder. Ou seja, não jogou bola. Nunca disputou um racha numa calçada de rua, nunca arrebentou um dedo nem teve uma bolha no pé, daquelas que tomam quase toda sola. Não sabe o que é isso, não sabe das motivações de uma partida de futebol, do balé e da potência, do drible, da capacidade de enganar o adversário para desconcertá-lo, desequilibrá-lo, ultrapassá-lo enfim. É preciso muita arrogância para partir pra cima com a bola dominada, muita pretensão para finalizar uma jogada com um tiro na meta do adversário, é preciso ter peito e raça para decidir uma jogada. Quem entra admitindo a derrota nunca consegue a vitória, a derrota é uma contingência nunca admitida a priori. Os jogadores choram na derrota. Será que nosso sábio já chorou com a camisa suada, os pés em frangalhos, os músculos moídos e um placar adverso em campo?
E a análise da partida é bisonha, ingênua, trouxa. Relegar o drible ao fundamento tático só na Dinamarca.  Devemos começar por admitir que somos os melhores e que somos obrigados a sê-lo sempre. Justamente o oposto do que sugere nosso intelectual.
Para entrar nos aspectos que agora nem interessam, apenas para não deixar o pitaco sem resposta, o que observamos na terrível partida foi que o meio campo brasileiro não existiu. Sandro, Rômulo e Oscar não empreendiam um jogo que provocasse mais dinamismo no ataque. Mal escalado, Sandro nunca mostrou qualidades para ser selecionado, e com Oscar frágil e sem inspiração, era nítida a exigência da presença de Lucas, mas o que fez o Mano? Entendeu que o ataque não funcionava e colocou Pato, o time ficou definitivamente sem meio campo. Impossível desrespeitar a tradição sem ser penalizado, e quem pagou o pato fomos nós.
A derrota para o México é injustificável e como disse Romário é culpa do Mano. E Romário é que sabe.


Amigos, o mínimo que se pode esperar do subdesenvolvido é o protesto. Ele tem de espernear, tem de subir pelas paredes, tem de se pendurar no lustre. Sua dignidade depende de sua indignação. Ou ele, na sua ira, dá arrancos de cachorro atropelado, ou temos de chorar pela sua alma.
[...] Eu vi que a tragédia do subdesenvolvimento não é só a miséria ou a fome, ou as criancinhas apodrecendo. Não. Talvez seja um certo comportamento espiritual. O sujeito é roubado, ofendido, humilhado e não reconhece o direito de ser vítima.

[...] Oh, meu Deus do céu! Virgem Santíssima! Nós já somos um povo que não faz outra coisa senão perder! Olhem a nossa cara. Reparem: – é a cara da derrota. Afinal de contas, o que é o subdesenvolvimento se não a derrota cotidiana, a humilhação de cada dia e de cada hora? E é uma ignomínia que venha alguém dizer a esse povo desesperado: – Vá perdendo! Continue perdendo! Aprenda a perder!”.” (Nelson Rodrigues). 

terça-feira, 27 de março de 2012

Ser Garrincha

Rubens Gerchman
Meu Personagem da Semana (Nélson Rodrigues) O Globo, março de 1962.  
1-    Amigos, o meu personagem é Garrincha. E podia ser Pelé, Garrincha ou Pelé, tanto faz. Um ou outro, mesmo sem fazer nada, é fato, é notícia, é retrato, é manchete. Para o “Paris Match”, mais vale um sorriso de Pelé do que o decote mais nítido, mais violento de Elizabeth Taylor. Mas eu escolhi Garrincha e explico: Dos seus pés      (ou de Pelé) pode nascer a flor do Bi.
2-    Ora, dizem que, nesta terra, qualquer um é neurótico, inclusive os passarinhos matinais. A gente anda esbarrando, tropeçando em melancolias, em depressões hediondas. Pois bem, Garrincha não. Eu próprio já escrevi, a propósito do “Seu Mané”: “A única sanidade mental do Brasil”. E, com efeito, a saúde interior de Garrincha é de humilhar esses bebês de anúncio. Sim, de anúncio de talco.
3-    No fundo, cada brasileiro é uma macaca de auditório de Garrincha. Notem: quando ele apanha a bola, o Maracanã, todo, arreganha um riso unânime e alvar. Não se sabe o que Garrincha vai fazer, qual a jogada que ele vai tirar de seu repertório tremendo. É um riso prévio, um riso que se antecipa à piada. Mas o que eu queria dizer é que pouco conhecemos de Garrincha ou, por outras palavras, que somos analfabetos em Garrincha.
4-    Alguém dirá que eu exagero, talvez, e daí? Mas nem tanto, amigos, nem tanto. Há em Garrincha uma série de coisas óbvias e que ninguém percebe. Por isso, vivo eu a dizer que só o gênio, só o Miguel Ângelo, só o Shakespeare enxerga o óbvio. Por exemplo: Garrincha não usa chuteiras como um simples craque mortal. Não. Ele joga de duras e franciscanas sandálias.
5-    Outra evidência ululante, e que ninguém descobriu: o nítido e taxativo parentesco de Garrincha com São Francisco de Assis. Eu disse “sandálias” para definir a relação entre os dois santos. Sei, perfeitamente, que qualquer um, inclusive um “gangster” de filme, tem um momento em que é um São Francisco de Assis, da cabeça aos sapatos.
6-    Sim, de vez em quando, uma vez na vida e outra na morte, qualquer de nós é atravessado de luz como um vitral de igreja. Mas é um instante que passa para nunca mais. Em Garrincha, não. São Francisco de Assis não passa, está sentado na alma do craque. Eu diria, se me relevarem a expressão meio torpe, que o santo é para Garrincha um desses chatos que não largam o sujeito.
7-    A qualquer hora do dia e da noite, em Pau Grande ou no Maracanã, Garrincha é franciscano. É o único brasileiro, vivo ou morto, que não conhece o ódio e, digo mais, que não conhece uma vaga de irritação. Nós somos um povo de ira fácil. Aqui, todo mundo gostaria de quebrar a cara de todo mundo (e, finalmente, ninguém quebra a cara de ninguém). Vocês se lembram daquele chefe de família que entrava em casa avisando: “Não falem comigo que, hoje, eu estou brigando automaticamente”.
8-    Garrincha, não. Garrincha, nunca. Faz um futebol sem “foul”. É caçado em campo, a cacetadas, como uma ratazana o era nos tempos de Osvaldo Cruz. É ceifado, dizimado. E só uma coisa admira: é que, no fim de cada jogo, ele não saia de maca ou não saia de rabecão. Pois bem: e jamais ocorreu a Garrincha enfiar o pé na cara de ninguém. É quebrado e, depois, cata no chão os próprios cacos.
9-    Mas onde Garrincha é mais franciscano, onde? Com as baianas. Sim, com as baianas turísticas, folclóricas, que vendem cuzcuz, pés de moleque, o diabo. E Garrincha prefere as cocadas brancas, nupciais, insiste: virginais. Mas não pensem que ele as come com uma simplicidade animal. Nada disso. Há uma ternura, há um amor. E ele poderia dizer como um santo: “Nossa irmã, a cocada”.
10- Hoje, está em Campos do Jordão e eu repito: Campos do Jordão é um cimo lívido, varado de ventos tristíssimos, de ventos inconsoláveis. Faço então a pergunta: por que meter Garrincha e o “scratch” na geladeira, por quê? Alguém dirá que é uma preparação para o frio dos Andes. Mas pelo contrário! O brasileiro é canicular. Há, nele, uma feroz e eterna nostalgia de canícula. Devíamos entupir, devíamos abarrotar Garrincha e o “scratch” de sol, de muito sol. Para derrotar o abominável frio chileno.
11- Algum Drummond podia ir, de porta em porta, pedindo: “Sejamos docemente Garrincha!” Ser Garrincha é uma solução para milhares, para milhões.
 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ROMÁRIO

NYC- foto GL
- Você foi recebido com preconceito em Brasília?
Olha, vou ser claro para quem ler entender como as coisas são. Há o burro, aquele que não entende o que acontece ao redor. E há o ignorante, que não teve tempo de aprender. Não houve preconceito comigo porque não sou nem uma coisa nem outra. Mesmo tendo a rotina de um grande jogador que fui, nunca deixei de me informar, estudar. Vim de uma família muito humilde. Nasci na favela. Meu pai, que está no céu, e minha mãe ralaram para me dar além de comida, educação. Consciência das coisas... Não só joguei futebol. Frequentei dois anos de faculdade de Educação Física. E dois de moda. Sim, moda. Sempre gostei de roupa, de me vestir bem. Queria entender como as roupas eram feitas. Mas isso é o de menos. O que importa é que esta sede de conhecimento me deu preparo para ser uma pessoa consciente... Preparada para a vida. E insisto em uma tese em Brasília, com os outros deputados. O Brasil só vai deixar de ser um país tão atrasado quando a educação for valorizada. O professor é uma das classes que menos ganha e é a mais importante. O Brasil cria gerações de pessoas ignorantes porque não valoriza a Educação. E seus professores. Não há interesse de que a população brasileira deixe de ser ignorante. Há quem se beneficie disso. As pessoas que comandam o País precisam passar a enxergar isso. A Saúde é importante? Lógico que é. Mas a Educação de um povo é muito mais.
- Essa ignorância ajuda a corrupção? Por exemplo, que legado deixou o Pan do Rio?
Você não tenha dúvidas que a ignorância é parceira da corrupção. Os gastos previstos para o Pan do Rio eram de, no máximo, R$ 400 milhões. Foram gastos R$ 3,5 bilhões. Vou dar um testemunho que nunca dei. Comprei alguns apartamentos na Vila Panamericana do Rio como investimento. A melhor coisa que fiz foi vender esses apartamentos rapidamente. Sabe por quê? A Vila do Pan foi construída em cima de um pântano. Está afundando. O Velódromo caríssimo está abandonado. Assim como o Complexo Aquático Maria Lenk... É um escândalo! Uma vergonha! Todos fingem não enxergar. Alguém ganhou muito dinheiro com o Panamericano do Rio. A ignorância da população é que deixa essa gente safada sossegada. Sabe que ninguém vai cobrar nada das autoridades. A população não sabe da força que tem. Por isso que defendo os professores. Não temos base cultural nem para entender o que acontece ao nosso lado. E muito menos para perceber a força que temos. Para que gente poderosa vai querer a população consciente? O Pan do Rio custou quatro vezes mais do que este do México. Não deixou legado algum e ninguém abre a boca para reclamar.
- Se o Pan foi assim, a Copa do Mundo no Brasil será uma festa para os corruptos...
Vou te dar um dado assustador. A presidente Dilma havia afirmado quando assumiu que a Copa custaria R$ 42 bilhões. Já está em R$ 72 bilhões. E ninguém sabe onde os gastos vão parar. Ningúem. Com exceção de São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul e olhe lá...Pernambuco... Todas as outras sete arenas não terão o uso constante. E não havia nem a necessidade de serem construídas. Eu vi onze das doze... Estive em onze sedes da Copa e posso afirmar sem medo. Tem muita coisa errada. E de propósito para beneficiar poucas pessoas. Por que o Brasil teve de fazer 12 sedes e não oito como sempre acontecia nos outros países? Basta pensar. Quem se beneficia com tantas arenas construídas que servirão apenas para três jogos da Copa? É revoltante. Não há a mínima coerência na organização da Copa no Brasil.
- São Paulo acaba de ser confirmado como a sede da abertura da Copa. Você concorda?
Como posso concordar? Colocaram lá três tijolinhos em Itaquera e pronto... E a sede da abertura é lá. Quem pode garantir que o estádio ficará pronto a tempo? Não é por ser São Paulo, mas eu não concordaria com essa situação em lugar nenhum do País. Quando as pessoas poderosas querem é assim que funcionam as coisas no Brasil. No Maracanã também vão gastar uma fortuna, mais de um bilhão. E ninguém tem certeza dos gastos. Nem terá. Prometem, falam, garantem mas não há transparência. Minha luta é para que as obras não fiquem atrasadas de propósito. E depois aceleradas com gastos que ninguém controla.
- O que você acha de um estádio de mais de R$ 1 bilhão construído com recursos públicos. E entregue para um clube particular. Você está falando do estádio do Corinthians, não é? Não vou concordar nunca. Os incentivos públicos para um estádio particular são imorais. Seja de que clube for. De que cidade for. Não há meio de uma população consciente aceitar. Não deveria haver conversa de politico que convencesse a todos a aceitar. Por isso repito que falta compreensão à população do que está acontecendo no Brasil para a Copa.
- A Fifa vai fazer o que quer com o Brasil?
Infelizmente, tudo indica que sim. Vai lucrar de R$ 3 a R$ 4 bilhões e não vai colocar um tostão no Brasil. É revoltante. Deveria dar apenas 10% para ajudar na Educação. Iria fazer um bem absurdo ao Brasil. Mas cadê coragem de cobrar alguma coisa da Fifa. Ela vai colocar o preço mais baixo dos ingressos da Copa a R$ 240,00. Só porque estamos brigando pela manutenção da meia entrada. É uma palhaçada! As classes C, D e E não vão ver a Copa no estádio.
O Mundial é para a elite. Não é para o brasileiro comum assistir.
- Ricardo Teixeira tem condições de comandar o processo do Mundial de 2014?
Não tem de saúde. Eu falei há mais de quatro meses que ele não suportaria a pressão. Ser presidente da CBF e do Comitê Organizador Local é demais para qualquer um. Ainda mais com a idade que ele tem. Não deu outra. Caiu no hospital. E ainda diz que vai levar esse processo até o final. Eu acho um absurdo.
- Muito além da saúde de Ricardo Teixeira. Você acha que pelas várias denúncias, investigações da Polícia Federal... Ele tem condições morais de comandar a organização Copa no Brasil?
Não. O Ricardo Teixeira não tem condições morais de organizar a Copa. Não até provar que é inocente. Que não tem cabimento nenhuma das denúncias. Até lá, não tem condições morais de estar no comando de todo o processo. Muito menos do futebol brasileiro...
A África apresentou há alguns meses atrás o resultado final da Copa do Mundo: deu prejuízo e grande. Agora é a vez do Brasil. Fifa, CBF, políticos e os empreiteiros vão ganhar muito dinheiro.
Quem teve a idéia de promover, o evento em nosso país, alguém sabe?
Parte de entrevista do ROMÁRIO ao jornalista Cosme Rimoli - TV Record . 

domingo, 25 de dezembro de 2011

Futebol totalitário?

Convivo com um certo desconforto desde quando percebi que o futebol do Barcelona definitivamente não me encanta, ao contrário me provoca uma ansiedade e um certo enfado toda vez que o vejo jogar. Mesmo sem sucesso torço para o adversário na esperança de impedir a  série ininterrupta de vitórias  da máquina catalã. Amante do futebol e acompanhando as resenhas e transmissões sinto uma profunda solidão por me encontrar na contra mão da opinião geral. Até que li o texto do José Miguel Wisnik em sua coluna no Globo e afinal, compreendi quase tudo. Vamos a ele:
pintura Rubens Gerchman
Futebol totalitário?
A vitória acachapante do Barcelona sobre o Santos não é apenas um assunto da semana passada. Ela instaura uma questão de longa duração, que envolve o destino do futebol como um todo. Francisco Bosco falou sobre o equívoco daqueles que quiseram ver no brilhantismo vencedor do Barcelona um eco das propriedades primordiais do futebol brasileiro. Essa atitude corresponderia a uma conversão tardia do velho “complexo de vira-latas” num “complexo de dálmata”: o time catalão não seria senão uma imitação do Brasil nos seus melhores momentos. Eu pessoalmente não me deparei com essa síndrome, mas com um sintoma oposto. Pessoas muito próximas e muito queridas, não necessariamente santistas, sentem com estranheza, diante do “futebol total” do Barcelona, o desconforto que se sente diante das manifestações totalitárias. Um amigo me conta que, em Paris, um jovem bêbado, acho que francês, o interpelou acusando-o, como brasileiro, de render-se ao futebol “fascista” do Barcelona. A dupla acusação é toda despropositada, mas, nesse caso, a vaia de bêbado vale como índice de alguma coisa pedindo para se formular. Vejo futebol desde criancinha e acho, como Bosco e também como Tostão, que estamos  diante de um fenômeno inteiramente novo. O futebol-arte clássico “jogava e deixava jogar”, compensando as fragilidades com uma sobra generosa de invenção (como fez, a propósito, o Santos do primeiro semestre do ano passado). No outro extremo, o time botinudo “não joga e não deixa jogar”, compensando a fragilidade com a tentativa de tirar vantagem da lei universal da entropia. O Barcelona, jogando, não deixa o adversário jogar, a ponto de rasurar a fragilidade congênita das organizações humanas. Que monstro é esse, que ataca sem se expor? Uma das características que distinguem o futebol dos outros esportes modernos é a contingência da posse de bola. Em vez da alternância da posse ou do saque, como no basquete, no vôlei e no tênis, a bola é perdida incontáveis vezes para o adversário. Isso contribui para fazer do futebol uma narrativa mais parecida com a vida, cheia de alternativas épicas, dramáticas, líricas e trágicas. O Barcelona tem reduzido drasticamente essa característica estrutural do próprio jogo, o que chegou ao paroxismo numa partida de importância simbólica máxima como essa com o Santos. Uma distribuição coletiva implacável em campo, em permanente deslocamento, um domínio irritante do passe, uma neutralização instantânea do espaço adversário (a bola chegava muito dificilmente a Ganso e a Neymar, logo cercados, sem falar em Durval, Léo ou Henrique, incapazes de dar sequência a qualquer jogada que não fosse rifando a bola), em suma, um conjunto de ações conjuntas (o pleonasmo é proposital) fazia com que só o time catalão visse a cor da bola (as próprias bolas espirradas sobravam todas para eles). No limite, isso parecia não ter mais as propriedades erráticas do futebol, sendo, no entanto, uma extensão paradoxal, às últimas consequências, dos fundamentos do futebol. Com o que o Barcelona conseguiu a um só tempo anular as qualidades mais que evidentes do time do Santos e tornar flagrantes todos os defeitos menos visíveis. Para complicar, há Messi. Tudo o que eu falei até aqui descreveria a seleção da Espanha, igualmente eficaz na posse de bola, mas muito menos capaz de perfurar defesas. O argentino Messi contribui decisivamente para dar a tudo isso um poder de fogo vertical, e para dissolver o perigo retórico dopasse lateral numa perspectiva permanente de brechas achadas na defesa adversária, tantas vezes com tanta arte. Com isso, o time do Barcelona ganha simultaneamente um poder de ataque e uma solidez de conjunto que nem a seleção da Espanha, por um lado, nem a da Argentina, por outro, têm. Desfaz-se a oposição tradicional entre ataque e defesa, assim como a oposição entre o futebol jogado em prosa (baseado em passes e triangulações) e em poesia (baseado em surtos de criaçãoimprevisível). Combinam-se numa nova fórmula o futebol europeu e o sul-americano. De certo modo, o Barcelona dessa temporada realiza aquilo que o carrossel holandês prefigurou em surtos e em sustos na Copa de 1974. Mas como se, ao consumar a realização total da “ideia” (Tostão diz que o Barcelona, mais que um time, é uma ideia), ele decodificasse por um momento a impossível “quadratura do circo” de que se compõe o futebol (as bases desse argumento podem ser encontradas no meu livro “Veneno remédio — o futebol e o Brasil”). É por isso, justamente, que o futebol do Barcelona soa opressivamente totalizante, no sentido de que ecoa as formas do poder contemporâneo que dominam todos os meios em jogo, ao mesmo tempo em que ostenta um controle da situação que as periclitantes economias europeias perderam. A construção da seleção brasileira de futebol está mais atrasada do que a dos estádios da Copa. Curiosamente, a primeira partida sob o comando de Mano Menezes, contra os Estados Unidos, prefigurou um futebol capaz de dar uma resposta própria àquele jogado pela Espanha campeã do mundo. Mas isso dependia, entre outras coisas que não cabe analisar aqui, da confirmação daquele Paulo Henrique Ganso, que hoje não persiste depois de três contusões longas e de insondáveis dramas contratuais. O entusiasmo por Neymar é totalmente justo do ponto de vista futebolístico, mas opressivo como mitificação psicomidiática, que parece ter a função suspeita de esconder a fraqueza atual do futebol brasileiro. Se esta vier à tona no momento decisivo, mais que a capacidade de reinvenção do futebol brasileiro, a culpa, num mecanismo bem conhecido, será jogada sobre ele. 
Fonte: O Globo 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lembranças do Doutor


foto GL - Chelsea Londres


Conheci o Dr. Sócrates em Fortaleza quando fui fazer um show com Fagner. Passamos um dia inesquecível juntos. Começamos na Praia do Futuro, onde comemos caranguejos enquanto observávamos seu filho na praia chutando a bola. Ao invés de acertar o gol a brincadeira era acertar a trave. Sócrates sorria, e a cada tentativa certeira intuíamos um talento hereditário no menino, para seu orgulho. Conversamos sobre futebol e o Doutor lembrava que jogando na Itália sentia falta do sol para jogar. Com impressionante sensibilidade argumentava que o desempenho orgânico do atleta estava condicionado a geografia que o formara e no caso dele, o Sol e a temperatura quente eram matérias primas para seu jogo. Sem isso, nada feito, era preciso muito esforço, que aliás ele confessava ser uma atribuição em geral despercebida quando se fala de futebol jogado em competição, maltrata demais o jogador. O Doutor sabia que ao entrar em campo no mínimo tomaria uma surra a cada jogo e se resignaria com esses mal tratos semanais, quase diários. Praticava sua profissão apanhando literalmente. A vida de jogador, dizia ele, é duríssima sobretudo por conta da própria especificidade do esporte, violento e de contato intenso. Saímos da praia e fomos jogar futebol. A mesma elegância que deixara nos gramados o Doutor tinha espontaneamente, era fino e delicado, atencioso e sensível com todos. Em campo na pelada preferiu jogar na defesa, do alto dos seus olhos o campo ficava pequeno e ele esquadrinhava sempre a melhor jogada. Depois do jogo, a purrinha, o jogo dos palitinhos. O doutor era gregário, a alegria da convivência nele se manifestava evidente, esfuziante e intensa. Era um menino que a pretexto da proximidade com o outro, para estar em grupo e feliz, sabia competir como o jogo impunha. Quem conheceu Dr. Sócrates em campo sabe a extraordinária capacidade desenvolvida por ele, alto e magro, no exercício da prática, tanto que se tornou dos melhores do mundo. Recebi hoje, no dia de sua morte, um email de um antigo professor da Inglaterra, acusando o  sad day. Mas quem o conheceu  pessoalmente teve o prazer de desfrutar do convívio de um ser humano especial. Todo amor ao Doutor Sócrates para sempre. 
foto Gabriela London