Mostrando postagens com marcador Vinicius de Moraes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vinicius de Moraes. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de novembro de 2011

Por que montar Orfeu?


logotipo Felipe Taborda
Espantei-me  com a pergunta de uma editora de cultura, por que montar Orfeu? Depois, convivi com ela ao longo do processo de produção, em toda entrevista lá estava a pergunta: por que montar Orfeu?
Produzir Orfeu tem sido uma sucessão de alegrias e perplexidades. Circular com uma peça que é uma homenagem ao negro brasileiro e tem como rubrica do autor a indicação de um elenco negro no mínimo é muito original para os padrões ainda vigentes entre nós.  Sentia-me retirando da cristaleira da cultura nacional uma de suas obras mais importantes ou metaforicamente extraindo o pré-sal cultural, riqueza negra enterrada. 
Por que montar Orfeu?
Desde sua estreia em 1956 a peça nunca esteve em circuito apesar de premiada e cultuada. O texto de Cacá Diegues narrando o impacto que teve ainda jovem acompanhado de seu pai no Theatro Municipal ao ver a peça já justificaria o interesse, mas a autobiografia do recente presidente americano Barack Obama expressando a influência decisiva em sua história do filme adaptado da obra de Vinicius, consolidou o desejo. Um misto de curiosidade e urgência transformou em exigência a empreitada, Miucha foi quem melhor definiu: "você  está encantado por Orfeu, ele é o mito do encantamento".
Descobri texto de pós graduação da USP sobre Orfeu e mais tarde da Sorbonne. Tive acesso aos originais da época que saudaram a peça como um marco cultural no Brasil. Li que Jorge Amado observou :“É um dos pontos altos da obra poética de Vinicius, e a música, toda ela é excelente”. Mas por que montar Orfeu?
Ninguém que eu conheço diretamente viu o espetáculo exceto Suzana de Moraes, a filha do poeta, assim como Cacá Diegues, comentou que estiveram lá no Municipal na célebre série de seis récitas do evento. Emocionei-me depois por saber de Jaques Morelenbaum que seu pai estava entre os músicos na efeméride. Entendi nesse momento o motivo de sua empolgação ao ser convidado para partilhar a direção musical por sugestão de Gilberto Gil.  
Orfeu determina uma virada na história da música popular, ainda que a peça só tenha ficado em cartaz em 1956 por dez dias no Theatro Municipal. Diversos ingredientes já anunciam o surgimento do novo gênero musical, a bossa nova, tais como a utilização de harmonias cromáticas e dissonantes, a articulação entre a música e a poesia e o lugar reservado ao violão no conjunto instrumental. Na ouverture ele sola a valsa de Eurídice, tema romântico da peça, e no decorrer da peça sola também introducões dos sambas e os tristes acordes com que Orfeu procura manifestar a dor e os conflitos que lhe vão no íntimo. O violão de Bonfá em nossa montagem é de Jaime Alem que co-dirige o musical. Por que montar Orfeu?
O mistério da ausência de Orfeu nos palcos brasileiros por mais de cinquenta anos não se resolve apenas com sua adaptação para o cinema. O primeiro filme de 59 conquistou todos os prêmios, foi responsável também pela apresentação internacional da nova música brasileira revelando ao público estrangeiro Tom Jobim, Vinicius , Bonfá e um Novo Mundo sonoro que diversos músicos franceses e americanos fascinados, gravam e evocam. A consagração no Festival de Cannes e no Oscar  marcam o ponto de partida da expansão da música brasileira pelo mundo.  Prenúncio da bossa nova, Orfeu Negro traça um triângulo musical inédito entre a França, o Brasil e a costa oeste dos Estados Unidos. O filme foi também denunciado em nome da autenticidade da própria cultura brasileira.  Análises mais modernas repensam o filme nas relações interculturais entre Brasil, França e Estados Unidos. Apesar das críticas formais e ideológicas, o filme constitui um documento de primeira ordem para o estudo da paisagem cultural carioca e da história das transferências culturais. As críticas da época comparam a mediocridade do filme com a criatividade da peça, obra original, esta sim considerada verdadeiramente brasileira. Cacá Diegues nos fins dos anos 90 lançou sua versão e disse: “ O filme Orfeu Negro enveredava por uma visao exótica e turística  da cidade, o que traía o sentido da peça e passava muito longe das suas fundadoras e fundamentais qualidades…”
Mas por que montar Orfeu?
Uma curiosidade na escolha do elenco. No filme de 59, o diretor Camus teve um cuidado especial  e privilegiou atores não profissionais que deveriam possuir  a inocência dos iniciantes e se distinguir pela beleza singular. Publicou retratos falados de Orfeu e Eurídice no jornal O Globo da época procurando “um rapaz negro de 27 anos medindo 1,75 e 1,80. E uma jovem negra de 20 anos.” Agora em nossa peça, por outros caminhos parece que cumprimos o ideal do cineasta, os baianos Brás e Aline corresponderiam aos critérios de sua seleção.  Na peça de Vinicius a presença do Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento foi a base do elenco. Cumprimos em ato a cerimônia de benção ao visitar o baluarte negro em seu Instituto que consagrou ainda no período de ensaios nossa montagem.
Acho que temos muitos motivos para encenar Orfeu.
www.orfeunegro.net

19 setembro 2010.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Morte de Vinicius e a Agonia da cultura


Estava em Portugal quando saiu a notícia terrível da morte de Luciana e dos motivos que a levaram ao desatino publicados no jornal. Temi e sofri em silêncio, lembrei imediatamente de Glauber Rocha e do assassinato cultural de sua irmã. Senti na morte de Luciana a mesma indignação: Vinicius morreu novamente, é um acontecimento deste momento tão triste de derrota no âmbito cultural no Brasil. A luta do direito, da arte e da cultura martirizou Vinicius, outra vez. Diversas vezes na longa caminhada para fazer Orfeu, diante dos céticos me referia a uma presença espiritual de Vinicius e Tom de cada lado no caminho. Creio que fabulei isso a Luciana durante os encontros de negócio. Sonhamos muito, juntos. Não nos falamos mais depois da estreia. A crítica medonha e injusta, o descaso, o abandono de Orfeu foi mais que um filme para os olhos de todos nós e sobretudo, vejo agora, para os olhos de Luciana. Não foi suficiente os reconhecimentos de Brasília e do Itamarati, a cultura nacional não alcança mais a dimensão da Obra de Vinicius e Luciana encarnou essa doença e sua agonia. Perdemos na música, nas artes cênicas, na literatura, no cinema, não temos orquestras nem bailados, nosso conteúdo vale cada vez menos e nos novos meios de circulação só há pirataria. Estamos retirando matéria e importando tudo, sem saber de onde veio nem para onde estamos indo. Subsidiamos a importação de conteúdo cultural. Vinicius morreu outra vez. O depoimento do Júlio Bressane no jornal O Globo deste sábado tem haver com tudo isso. A luta no Minc também, todas as lutas no Minc. Como fez falta a música brasileira no filme Rio, e a poesia de Vinicius colada a ela. Ficamos reduzidos a paisagens e ao tudo pode acontecer ali, uma resultante de Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropas de Elite. Nem música, nem poesia, nem nada. Precisamos viver a morte de Luciana e ressuscitar Vinicius…e Tom…não temos feito suficientemente. É injusto esse sofrimento todo associado a Vinicius. ( aos 13 anos, apaixonado, presenteei minha namorada com Para Viver um Grande Amor…é minha melhor lembrança de Vinicius).
Pêsames. segunda-feira, 9 maio 2011